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BC avisou antes e listou falhas que inviabilizaram compra do Master pelo BRB

O BRB queria ficar com 58,04% do Master, fatia que incluiria 49% das ações com direito a voto e 100% das preferenciais

Por Admin

03 de abril de 2026 às 10:00


BC avisou antes e listou falhas que inviabilizaram compra do Master pelo BRB

Documentos encaminhados pelo Banco Central (BC) ao Tribunal de Contas da União (TCU) mostram que a autoridade monetária avisou com antecedência que o processo de aquisição do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília) não reunia condições para receber aval. O alerta ocorreu cerca de dois meses antes da decisão final que barrou a operação, tomada no início de setembro do ano passado.

Em ofício datado de 27 de junho, técnicos do Departamento de Organização do Sistema Financeiro afirmaram que, apesar de cinco remessas de documentos feitas pelas instituições, o material continuava insuficiente. No texto, o BC registrou que, no formato apresentado naquele momento, o pedido não poderia ser aprovado.

Banco Central apontou 40 pendências e cobrou documentação adicional

No ofício de junho, o BC listou 40 itens que exigiam esclarecimentos, comprovações e detalhamento do desenho do negócio. Entre as exigências, estavam demonstrativos contábeis, relatórios de diligência, revisão de projeções econômico-financeiras e a definição precisa do que seria, de fato, transferido ao BRB caso a negociação fosse concluída.

Segundo os registros, a delimitação do chamado “perímetro da transação” mudou diversas vezes entre o protocolo inicial do pedido, feito pelo BRB em 28 de março, e a fase final de análise, meses depois. Para a equipe técnica, a falta de um escopo estável impedia uma avaliação consistente da viabilidade do negócio.

Procurado, o Banco Master informou, por meio de sua defesa, que não comentaria o caso. O BRB foi contatado por e-mail e por WhatsApp, mas não respondeu até a publicação.

Relatório da PwC citou fragilidades e controle manual de informações

Entre os documentos mencionados pelo BC estava um relatório de diligência produzido pela consultoria PwC. O material, citado no pedido de complementação enviado em junho, indicou ausência de informações de suporte consideradas essenciais e apontou falta de reconciliação de saldos relevantes de ativos, como aplicações compromissadas, carteira de crédito e depósitos à vista.

O relatório também destacou que parte das informações era acompanhada manualmente, o que elevaria o risco sobre a confiabilidade dos dados e reforçaria a necessidade de fortalecimento dos controles internos. A avaliação foi incorporada às exigências do BC, que pediu explicações e comprovações adicionais às instituições.

BC questionou FIDC e rentabilidade reportada pelo Master

No mesmo conjunto de cobranças, o Banco Central solicitou que o Master detalhasse a composição do FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) RSG e esclarecesse a rentabilidade informada nos documentos. De acordo com o ofício, o banco reportou retorno de 4.245,81% em um intervalo de 42 dias, dado que passou a integrar os pontos de questionamento da autarquia.

Nova advertência em julho: inconsistências e falhas nas projeções

Pouco menos de um mês depois, em 23 de julho, o BC voltou a comunicar BRB e Master que o pedido seguia sem condições de aprovação. Nesse segundo ofício, os técnicos apontaram inconsistências e indefinições sobre o perímetro da operação e problemas nas projeções econômico-financeiras apresentadas para sustentar a transação.

Conforme o documento, as falhas identificadas comprometiam o requisito de viabilidade do negócio. A correspondência foi enviada 42 dias antes de o Banco Central decidir pela negativa definitiva à transferência de controle.

Segundo a documentação remetida ao TCU, o ofício de 23 de julho representou a terceira tentativa formal do BC de obter informações completas e detalhadas sobre a operação pretendida. Uma última solicitação ainda teria sido feita alguns dias depois, em 31 de julho.

TCU analisa conduta do BC e vê indícios de temeridade do BRB

Os ofícios e registros internos do Banco Central foram enviados ao Tribunal de Contas da União, que mantém mais de um procedimento para apurar a atuação do órgão na liquidação do Banco Master e no exame da proposta do BRB para aquisição da instituição ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Na análise já realizada, a área técnica do TCU concluiu que o Banco Central agiu com diligência e adotou critérios técnicos. Já a unidade especializada em fiscalização do setor bancário (AudBancos) apontou indícios de que o BRB teria atuado de forma temerária ao insistir na compra mesmo após o BC identificar suspeitas de fraudes em operações de cessão de carteiras de crédito entre as instituições.

Sobre esse entendimento, o Governo do Distrito Federal — principal acionista do BRB — declarou que o banco possui governança corporativa robusta e atua com independência nas decisões de mercado. O GDF afirmou ainda que as tratativas avaliadas faziam parte de um processo regular de estruturação de negócios.

“Projeto Vórtice” e o plano de expansão nacional do BRB

No mesmo dia em que houve a segunda cobrança do BC por planilhas, documentos e esclarecimentos, o BRB divulgou ao mercado os resultados do primeiro trimestre de 2025. No material voltado a investidores, a compra do Master aparecia como eixo de uma estratégia de crescimento batizada de “Projeto Vórtice”.

Segundo a comunicação do banco, a operação ajudaria a impulsionar a expansão nacional e colocaria o BRB entre os dez maiores do país em volume de crédito. A proposta previa a aquisição de 58,04% do Master, participação que incluiria 49% das ações com direito a voto e a totalidade das preferenciais.

Liquidação do Master e desdobramentos envolvendo Daniel Vorcaro

Em 2025, pouco mais de dois meses após o Banco Central barrar a transferência de controle para o BRB, o Banco Master teve a liquidação decretada. Daniel Vorcaro foi preso, chegou a cumprir a decisão em regime domiciliar e, em 4 de março deste ano, retornou ao regime fechado.

A mudança ocorreu após a Polícia Federal encontrar, no celular do ex-banqueiro, mensagens que mencionavam a intenção de simular um assalto como forma de intimidação ao jornalista Lauro Jardim, de O Globo, segundo as investigações. A apuração também cita a existência de um grupo privado chamado “A Turma”, que teria como objetivo coagir e ameaçar desafetos.

Atualmente, Vorcaro está na superintendência da Polícia Federal em Brasília, onde negocia um acordo de colaboração premiada. As informações foram publicadas com contribuição de Fernanda Brigatti, da Folhapress.

Fonte: UrbNews



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