Direitos e memória
Por REDAÇÃO
25 de julho de 2026 às 11:32 ▪ Atualizado há 5 horas
Neste sábado (25), movimentos sociais e organizações de direitos humanos lembram o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data dedicada ao reconhecimento das lutas e das contribuições históricas de mulheres negras no continente.
No Brasil, a efeméride também tem um sentido nacional: desde 2014, 25 de julho é o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído em homenagem à líder quilombola que se tornou símbolo de resistência à escravidão.
Tereza de Benguela viveu no século 18 e ficou conhecida por liderar o Quilombo do Quariterê, no atual estado de Mato Grosso. Após a morte de seu companheiro, José Piolho, assassinado por soldados do Estado, ela assumiu a condução da comunidade.
Apelidada de “rainha Tereza”, comandou por cerca de 20 anos um quilombo com mais de 100 pessoas, reunindo negros e indígenas. A comunidade resistiu à escravidão até 1770, quando foi atacada e desarticulada.
Há lacunas nos registros sobre seu destino: não há consenso se Tereza morreu em combate durante a invasão de forças portuguesas ou se conseguiu sobreviver por mais algum tempo. Também não é possível afirmar com precisão seu local de nascimento, que pode ter sido no continente africano ou no Brasil.
Mesmo com incertezas sobre detalhes biográficos, o que os documentos históricos evidenciam é a relevância do seu papel como liderança política. Relatos indicam que o Quariterê adotava uma forma de governança com decisões coletivas, em um modelo descrito como semelhante a um parlamento.
Para a jornalista e pesquisadora em Direitos Humanos Leonor Costa, militante do Movimento Negro Unificado, Tereza de Benguela segue como referência para mulheres negras brasileiras por representar enfrentamento direto a estruturas de opressão.
Segundo ela, o exemplo deixado pela líder quilombola mostra que, diante de um sistema que oprime, a reação possível é a luta e a resistência organizada.
A memória de Tereza também se conecta a demandas atuais. A integrante da Coordenação Nacional de Comunidades Negras Rurais Quilombolas, Selma Dealdina Mbaye, aponta que o 25 de julho reforça a urgência da titulação de terras quilombolas no país.
De acordo com Selma, as mulheres têm presença majoritária em muitos territórios quilombolas e reivindicam segurança e autonomia para viver em áreas livres de grilagem, exploração, mineração e outras formas de violência e violações de direitos.
Ela afirma que o Brasil registra mais de 8 mil quilombos, com mais de 1,3 milhão de pessoas, distribuídos por 24 estados e em mais de 1,7 mil municípios. Para a dirigente, o número expressivo de comunidades reforça a necessidade de políticas públicas consistentes para garantir a permanência e a proteção desses territórios.
O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é celebrado desde 1992. A escolha do dia remete ao 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana.
O encontro reuniu representantes de mais de 30 países e teve como foco denunciar violências estruturais, como racismo e desigualdades, além de articular uma agenda coletiva de mobilização em defesa de direitos.
No Brasil, o reconhecimento nacional veio depois: em 2014, uma lei instituiu oficialmente o 25 de julho como Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, somando-se ao calendário internacional.
Além das datas oficiais, o mês ganhou força com iniciativas da sociedade civil. Desde 2013, o país realiza o Julho das Pretas, agenda criada pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, de Salvador.
Em 2026, a programação da 14ª edição reúne mais de 600 atividades em diferentes regiões, organizadas por quase 300 coletivos ao longo do mês. O calendário inclui debates, ações culturais, formações e atos públicos que tratam de temas como saúde, violência, participação política e direitos territoriais.
Entre as mobilizações está a Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, que pede justiça por Luana Barbosa, mulher negra e lésbica morta após agressões ocorridas há dez anos, depois de se recusar a ser revistada por policiais homens durante uma abordagem em Ribeirão Preto, no interior paulista.
Ao reunir memória e reivindicações contemporâneas, o 25 de julho reforça a centralidade das mulheres negras na história e no presente do país — e recoloca em pauta desafios como o combate ao racismo, a garantia de direitos e a proteção dos territórios quilombolas.
Fonte: Agência Brasil
Segurança digital
Decisão no STF
Direitos humanos
Infância e clima
Caso Aline Borel
Crime farmacêutico