Infância e clima
Por REDAÇÃO
25 de julho de 2026 às 08:32 ▪ Atualizado há 8 horas
Um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indica que crianças e adolescentes no Brasil convivem com riscos ambientais e climáticos distribuídos de forma desigual entre os municípios. A análise, divulgada nesta semana, aponta 333 cidades em situação de vulnerabilidade socioambiental e climática mais crítica para esse público — cerca de 6% do total de municípios do país.
Os dados fazem parte do Painel Crianças e Meio Ambiente, desenvolvido pelo Unicef em parceria com a organização global de saúde Vital Strategies. A plataforma permite consultar informações de todos os 5.571 municípios brasileiros com base em séries de 2021 a 2025.
A ferramenta organiza a avaliação municipal a partir de 14 indicadores de exposição ambiental, reunidos em quatro eixos temáticos: qualidade do ar, infraestrutura ambiental e urbana, eventos climáticos extremos e ambiente escolar.
Entre os itens considerados estão registros recentes de chuvas intensas, ondas de calor e secas; proporção da população sem água tratada ou sem coleta de esgoto; e episódios de poluição do ar — seja associada ao transporte público ou por concentrações acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para orientar a tomada de decisão, cada indicador recebe um enquadramento em três faixas de prioridade. O nível 3 sinaliza necessidade de atenção imediata e priorização de ações. O nível 2 indica recomendação de planejamento e adoção progressiva de medidas no curto e médio prazo. Já o nível 1 representa baixa prioridade, com foco em acompanhamento contínuo, sem urgência de intervenção emergencial.
Segundo o estudo, os 333 municípios identificados como mais vulneráveis aparecem em nível 3 em mais de dez dos 14 indicadores, o que caracteriza um quadro de vulnerabilidade severa e multidimensional. Há concentração expressiva de cidades nas regiões do Norte e no estado do Maranhão.
No extremo oposto do ranking, 108 municípios (1,9%) não foram classificados em alta prioridade em nenhum dos indicadores analisados.
Para a representante adjunta do Unicef no Brasil, Layla Saad, o painel ajuda a transformar informações técnicas em caminhos de ação. No lançamento da iniciativa, ela afirmou que a leitura por prioridades contribui para fortalecer a gestão local, reconhecer os desafios mais urgentes e orientar escolhas de políticas públicas, programas e alocação de orçamento.
O panorama geral indica que os municípios com maior número de indicadores em alta prioridade estão principalmente em Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Entre os 30 piores resultados no desempenho agregado, 24 municípios pertencem à região Norte e quatro estão no Maranhão. Os demais aparecem em Mato Grosso.
De acordo com a nota técnica do painel, parte dessas localidades tem população pequena e economia baseada em atividades primárias, o que pode ampliar a exposição a ameaças climáticas e socioambientais e, ao mesmo tempo, reduzir a capacidade de resposta local.
No recorte de qualidade do ar, o painel avaliou a fatia de dias, entre 2021 e 2025, em que a concentração de partículas finas ultrapassou parâmetros recomendados pela OMS. A região Norte aparece com maior criticidade: 94% de seus municípios foram classificados como afetados no grupo de maior prioridade, cenário associado, segundo a análise, à incidência de queimadas.
O Sudeste também se destaca nesse tema por um efeito de escala populacional. Embora 39% dos municípios estejam no grupo de maior prioridade, eles concentram 72% da população infantil da região. Nesses casos, a piora da qualidade do ar é relacionada, em geral, ao transporte e a atividades industriais.
Nos eventos climáticos extremos, as regiões Norte e Sul concentram, respectivamente, 91% e 68% dos municípios que demandam atenção, com destaque para ocorrências de chuvas intensas.
Em infraestrutura ambiental e urbana, as maiores proporções de municípios em alta prioridade estão no Norte (78%) e no Nordeste (46%). O painel aponta que, no Norte, pesam fatores como dispersão geográfica e dificuldade de expansão de redes em áreas de baixa densidade. No Nordeste, somam-se a escassez hídrica e a menor capacidade financeira municipal para investir em obras e serviços.
Já no eixo de ambiente escolar, o ranking de prioridade é liderado por Nordeste (52%) e Sudeste (39%), a partir do indicador de escolas sem qualquer área verde.
Ao comentar o impacto de eventos extremos, o especialista em Mudanças Climáticas do Unicef, Danilo Moura, ressaltou em entrevista à TV Brasil que crianças tendem a depender de adultos para reconhecer perigos e tomar decisões, como sair de uma área de risco e buscar segurança. Na avaliação do Unicef, essa condição reforça a necessidade de políticas e alertas que considerem as especificidades da infância.
Além de exibir os diagnósticos por cidade, a plataforma disponibiliza 50 recomendações para cenários classificados como alta prioridade. As orientações incluem desde intervenções físicas até medidas institucionais voltadas à prevenção e à gestão de riscos.
Para Pedro de Paula, vice-presidente de Inovação da Vital Strategies, o painel pode apoiar ações preventivas e o enfrentamento de desigualdades. Ele defende que um ambiente seguro, saudável e sustentável é parte do direito de crianças e adolescentes e um elemento essencial para o desenvolvimento integral.
Fonte: Agência Brasil
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