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Novos postos de saúde reduzem viagens de ribeirinhos em Carauari (AM)

Aldeniza Silva e Silva espera o quinto filho. Grávida de sete meses, a moradora da comunidade ribeirinha de Boa Vista, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, na região do Médio Rio Juruá, em Carauari (AM), precisava, até e

Por REDAÇÃO

25 de julho de 2026 às 17:19 ▪ Atualizado há 1 hora


Novos postos de saúde reduzem viagens de ribeirinhos em Carauari (AM)

Aos sete meses de gestação do quinto filho, a ribeirinha Aldeniza Silva e Silva se acostumou a medir o tempo em horas de rio. Moradora da comunidade Boa Vista, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, no Médio Rio Juruá, em Carauari (AM), ela precisava viajar até a área urbana do município para conseguir atendimento médico e dar sequência ao pré-natal.

O percurso, feito em rabeta — embarcação pequena e comum na região — pode durar de dois a três dias, a depender do nível do rio. Em trechos do interior do Amazonas sem acesso por estradas, navegar é a única maneira de chegar à “cidade”, como os moradores chamam o centro urbano de Carauari.

Com a distância e o custo das viagens, Aldeniza havia feito apenas três consultas durante a gestação, embora a recomendação do Ministério da Saúde seja de, no mínimo, seis acompanhamentos ao longo do pré-natal.

Postos aproximam o SUS das comunidades da RDS Uacari

Essa realidade começou a mudar com a inauguração de dois novos pontos de apoio à saúde em áreas próximas às comunidades ribeirinhas. As estruturas foram instaladas em bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) nas regiões de Campina e Bauana.

Com a abertura das unidades, Aldeniza passou a realizar as consultas perto de casa, no ponto de atendimento de Campina. Ela também aproveitou a visita para levar a filha de seis anos, que apresentava sintomas de verminose, segundo avaliação inicial do médico.

A mudança também foi celebrada por Maria Valkiane Freitas e Silva, moradora de Bauana. Antes, ela encarava cerca de 12 horas de rabeta para conseguir consulta na sede do município. Além do tempo, o combustível encarece a jornada: segundo ela, a ida podia custar o equivalente a uma botija de gás (R$ 160) e o retorno, duas ou três, conforme a necessidade de abastecer novamente.

Carauari e o desafio das longas distâncias na Amazônia

Carauari é um município às margens do Rio Juruá, com aproximadamente 28 mil habitantes, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O território fica a mais de 1,6 mil quilômetros de Manaus em trajeto fluvial, o que pode representar cerca de 36 horas de viagem em lancha expressa quando o rio está seco.

Na zona rural, dezenas de comunidades estão a dias do centro urbano. Em casos graves, a prefeitura utiliza lanchas de resgate, as chamadas “ambulanchas”, para retirar pacientes e levá-los até a cidade — deslocamentos que variam conforme a distância e a sazonalidade dos rios.

Como funcionam as novas unidades de atendimento

Os pontos implantados em Campina e Bauana foram planejados para a realidade ribeirinha: atendimento presencial, suporte às equipes de saúde e uso de telessaúde para ampliar a capacidade de avaliação e encaminhamento.

Cada unidade conta com consultórios para atendimentos locais e remotos, sala de triagem, espaço odontológico, conexão de internet, equipamentos voltados à telemedicina e áreas de permanência para profissionais de saúde. Os serviços são integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS), embora o projeto seja conduzido por uma parceria público-privada.

Batizada de “SUS na Floresta”, a iniciativa em Carauari resulta de um edital do programa Juntos pela Saúde. A execução é da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umame, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas.

Segundo Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, a proposta não é criar um serviço paralelo. A estratégia é reforçar a rede pública já existente. Ele explica que as unidades são implementadas em articulação com prefeituras e secretarias municipais de Saúde, e que os profissionais que atendem estão vinculados ao SUS e à Estratégia Saúde da Família.

Homenagens e alcance: 56 comunidades e 4,7 mil pessoas

O ponto de apoio de Bauana foi inaugurado no domingo (19) e recebeu o nome de Raimundo Ribeiro de Lima (Saborá), liderança comunitária homenageada pela atuação na região. Já a unidade de Campina foi aberta na terça-feira (21) e leva o nome de Laice Santos do Nascimento, também referência local.

Somados, os dois espaços devem atender 56 comunidades ribeirinhas, alcançando cerca de 4,7 mil moradores. A expectativa é melhorar não apenas o atendimento de demandas imediatas, como dores, ferimentos e acompanhamento de hipertensos, mas também fortalecer ações preventivas e a vacinação.

Em São Francisco, comunidade próxima da unidade de Campina, a notícia se espalhou rapidamente. A ribeirinha Cecilia Bispo de Lima relatou que a proximidade do atendimento pode evitar situações em que a demora no deslocamento até a cidade compromete o socorro. Ela recordou um episódio em que precisou viajar com fortes dores na coluna, enfrentando o trajeto em condições precárias por não suportar permanecer sentada.

Para Luana do Carmo da Gama, a abertura do ponto de atendimento facilita levar o filho Antonio Pedro, de quatro anos, para ser imunizado. A avaliação dela é de que o serviço perto de casa amplia a chance de buscar ajuda logo no início dos sintomas, sem depender de longas viagens.

Atendimentos já reduzem pedidos de resgate

Na semana de inauguração, os novos pontos já contribuíram para diminuir a necessidade de acionar as ambulanchas. Em Campina, foram evitadas cinco solicitações de resgate, segundo o balanço inicial relatado na região.

Entre os casos atendidos está o do jovem Thiago Freitas Andrade, da comunidade Xibuauzinho, que feriu o pé ao pisar em uma tábua com pregos durante uma partida de futebol. Ele ficou cerca de uma semana com dor intensa antes de procurar a unidade. No local, recebeu assistência de um enfermeiro e de uma técnica de enfermagem, com medicação, cuidados com o ferimento e orientação de repouso.

Outro atendimento envolveu uma criança que se machucou com um anzol de pesca, além de casos de gripe e demandas de pré-natal. A proposta do “SUS na Floresta”, como resume Guilherme Sylos, é adaptar e fortalecer a Atenção Primária à Saúde em territórios tradicionais, considerando as grandes distâncias, a variação do nível dos rios, a dificuldade de fixação de profissionais e as particularidades culturais da Amazônia.

Fonte: Agência Brasil



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