Transporte rodoviário
Por Admin
18 de março de 2026 às 09:00
Caminhoneiros de diversas regiões do Brasil voltaram a discutir a possibilidade de uma paralisação nacional nos próximos dias, em reação ao encarecimento do diesel e à frustração com ações anunciadas pelo governo federal para segurar os preços do combustível.
A mobilização, segundo lideranças do setor, envolve tanto motoristas autônomos quanto profissionais contratados por empresas de transporte sob regime CLT. Até o momento, não há uma data definida para o início do movimento, mas entidades e cooperativas trabalham para unificar o calendário e ampliar a adesão.
O presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, afirmou que a categoria já sinalizou internamente a disposição de interromper as atividades. A estratégia agora é construir um acordo entre grupos regionais, transportadoras e cooperativas para escolher um dia e dar capilaridade ao protesto.
De acordo com Landim, há conversas e mobilização em pontos como Santos (SP), além de estados do Sul, e também no Distrito Federal e em Goiás. Para ele, o aumento dos custos tornou a operação diária inviável para parte dos profissionais, especialmente os autônomos, que bancam combustível, manutenção e pedágios.
Um dos argumentos citados por lideranças é a dependência brasileira de importações de diesel, estimada entre 20% e 30% do consumo, o que aumenta a vulnerabilidade às oscilações externas e pressiona o preço final.
A insatisfação cresceu após a sequência de anúncios envolvendo a política de preços do diesel. Em 12 de março, o governo federal divulgou um pacote emergencial para tentar conter a escalada do combustível, incluindo a redução a zero das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel.
O plano também incluiu medidas de subvenção: empresas produtoras ou importadoras poderiam receber um incentivo de R$ 0,32 por litro, desde que vendessem o diesel abaixo de um valor de referência estabelecido. Pelas estimativas apresentadas na ocasião, o conjunto poderia resultar em queda de até R$ 0,64 por litro em alguns cenários.
No entanto, um dia depois do anúncio do pacote, a Petrobras comunicou aumento de R$ 0,38 por litro no diesel A nas refinarias — produto que ainda passa pela mistura obrigatória com biodiesel antes de chegar ao consumidor.
A estatal justificou o reajuste principalmente pela alta do petróleo no mercado internacional, atribuída ao agravamento do conflito no Oriente Médio, fator que elevou os custos globais do combustível.
Para representantes dos caminhoneiros, a elevação nas refinarias reduziu ou eliminou o impacto esperado da renúncia fiscal. A categoria cobra “previsibilidade” e medidas que, na avaliação de lideranças, gerem redução efetiva na ponta.
Além do preço do diesel, o setor aponta outros pontos considerados críticos. Entre eles está a cobrança por cumprimento do piso mínimo do frete previsto na Lei 13.703/2018, criada após a grande paralisação da categoria naquele ano e que instituiu a política nacional de pisos mínimos para o transporte rodoviário de cargas.
Segundo Landim, a falta de fiscalização e a pressão do mercado levam muitos profissionais a aceitarem valores abaixo do mínimo. Ele defende que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável pela fiscalização, já dispõe de ferramentas para reforçar o controle, inclusive com mecanismos eletrônicos relacionados à planilha de custos.
Outra medida defendida por lideranças é a isenção de pedágio para caminhões que trafegam sem carga, além da cobrança para que contratantes respeitem o valor mínimo do frete. A avaliação é que, com fretes comprimidos e custos elevados, a margem operacional se tornou insuficiente para manter a atividade.
O governo federal acompanha o tema e, segundo relatos do setor, já havia identificado sinais de possível mobilização antes mesmo do anúncio do pacote para o diesel. Landim afirmou que foi procurado por integrantes da Casa Civil da Presidência da República em 16 de março para discutir o cenário.
Apesar disso, há resistência e desconfiança entre parte das lideranças quanto à efetividade das negociações. A avaliação é que reuniões anteriores não resultaram em soluções concretas para a realidade dos caminhoneiros, sobretudo em períodos de forte volatilidade do combustível.
Paralelamente, o governo tem apontado indícios de preços abusivos nas bombas e sinalizou que pretende intensificar a fiscalização em postos para verificar repasses ao consumidor.
No campo tributário, governadores decidiram negar um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para reduzir o ICMS sobre o diesel, em uma tentativa de amenizar os efeitos das cotações internacionais do petróleo. Em nota divulgada em 17 de março, os estados afirmaram que já tiveram perdas relevantes com o corte do imposto estadual determinado no governo Jair Bolsonaro (PL).
No mesmo posicionamento, os governadores também atribuíram parte do problema a distribuidoras e postos, alegando que reduções de preços nem sempre são repassadas integralmente ao consumidor final.
A Abrava, presidida por Landim, afirma reunir cerca de 35 mil caminhoneiros. Estimativas do setor apontam que o Brasil tem aproximadamente 790 mil caminhoneiros autônomos e cerca de 750 mil motoristas contratados sob regime celetista.
Com a cadeia de abastecimento dependente do transporte rodoviário, qualquer interrupção tende a gerar impacto amplo na economia. Por isso, as conversas para definir data e formato de uma eventual paralisação seguem no centro das atenções de empresas, governo e consumidores.
Com informações de André Borges, da Folhapress.
Fonte: UrbNews
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