Diplomacia e energia
Por Admin
20 de abril de 2026 às 21:30
BERLIM — Em agenda na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concentrou suas declarações públicas em dois eixos: a defesa da diplomacia diante das tensões no Oriente Médio e a cobrança por mudanças na governança internacional, com foco na reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Ao lado do primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, Lula também voltou a promover a pauta dos biocombustíveis — tema escolhido para embalar a agenda econômica do giro europeu —, enquanto o premiê ressaltou o impacto do cenário de instabilidade na segurança energética do continente.
Durante a entrevista coletiva, Lula recordou a missão diplomática realizada em 2010, quando esteve em Teerã para tratar do programa nuclear iraniano. Na época, segundo ele, líderes ocidentais demonstravam preocupação com o enriquecimento de urânio pelo Irã. O presidente afirmou ter participado de conversas com o então dirigente político iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, com apoio de um parceiro turco.
Lula contou que o objetivo era construir um compromisso que reduzisse a desconfiança internacional, incluindo a previsão de que parte do material enriquecido ficaria armazenada na Turquia. Ele disse ainda que levou ao Irã uma proposta que atribuiu ao então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Na avaliação de Lula, apesar do esforço diplomático, a resposta posterior de países europeus e dos EUA foi o endurecimento de medidas contra o Irã. O presidente argumentou que situações semelhantes voltam a ocorrer, agora em ambiente mais grave, alimentadas por narrativas que, segundo ele, podem ser usadas para justificar decisões internacionais de alto risco.
Questionado sobre a possibilidade de uma ação militar dos Estados Unidos contra Cuba — hipótese que, conforme citado na coletiva, tem sido mencionada por Donald Trump e pelo Departamento de Defesa americano nas últimas semanas —, Lula ampliou a comparação com outros conflitos e disputas recentes.
Ele citou Gaza, Ucrânia, Venezuela e o próprio Irã como exemplos de territórios que, de acordo com sua leitura, foram submetidos a violações em diferentes níveis. Sobre Cuba, Lula afirmou que o país convive há décadas com bloqueio econômico e político, o que, em sua visão, limitou a capacidade da ilha de definir seus rumos após a revolução.
Ao tratar do Oriente Médio, Lula insistiu na prioridade da negociação e criticou a lógica que, segundo ele, sustenta intervenções com base em justificativas frágeis. Ele mencionou a invasão do Iraque, em 2003, como referência histórica para sustentar sua posição de ceticismo diante de alegações sobre ameaça nuclear iminente.
Mais contido no tom, Merz afirmou que a Alemanha defende a condução diplomática de crises e disputas internacionais. Embora tenha reiterado apoio a investimentos em segurança nacional, disse que isso não equivale a promover invasões ou intervenções em outros territórios.
O premiê também vinculou a escalada de tensões no Oriente Médio à vulnerabilidade energética europeia. Segundo ele, a continuidade do conflito aumenta a insegurança na região e representa ameaça direta para a Europa, que convive com pressões sobre preços e oferta de energia.
Merz fez um apelo para que Irã, Israel e Estados Unidos busquem uma saída negociada. No mesmo contexto, mencionou o impacto da instabilidade sobre cadeias de suprimento e sobre a previsibilidade econômica, tema sensível para governos europeus.
O presidente brasileiro usou a visita para reforçar a defesa dos biocombustíveis como alternativa para diversificar a matriz energética e reduzir emissões. O tema foi tratado como vitrine de tecnologia e produção brasileiras, em linha com a estratégia do governo de vender o país como parceiro para a transição energética.
Merz, por sua vez, citou o contexto interno alemão: o país reduziu recentemente o limite de uso de biocombustível no diesel, hoje em 4,4%. Ainda assim, o chanceler apontou que o debate sobre fontes alternativas ganha relevância diante das incertezas geopolíticas que pressionam o setor de energia na Europa.
Outro ponto central da coletiva foi a defesa de mudanças na ONU, especialmente no Conselho de Segurança. Lula voltou a criticar a concentração de poder em torno dos cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China — e argumentou que o atual desenho não responde, na prática, ao objetivo de garantir a paz internacional.
Merz afirmou que o Brasil apoiará a inclusão da Alemanha como membro permanente do Conselho de Segurança, uma reivindicação alemã de longa data. Os dois líderes indicaram que, sem reformas institucionais, a ONU tende a perder capacidade de resposta a conflitos e crises globais.
Lula defendeu que os países assumam a responsabilidade de negociar alterações na Carta das Nações Unidas e no estatuto do Conselho, com o objetivo de renovar a estrutura de poder e ampliar a legitimidade do órgão.
Com perguntas limitadas pelo protocolo alemão, Lula foi questionado sobre o ambiente eleitoral no Brasil. Ele negou turbulência e afirmou que encara o processo como parte natural da democracia. Ao comentar o calendário, mencionou um prazo mais largo do que o período efetivo restante até a disputa.
O presidente encerra a etapa europeia nesta terça-feira (21), com escala em Lisboa. A agenda inclui encontros com o primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, e com o novo presidente do país, António José Seguro.
Com informações de José Henrique Mariante, da Folhapress.
Fonte: UrbNews
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