Memória e reparação
Por REDAÇÃO
21 de julho de 2026 às 19:47 ▪ Atualizado há 1 hora
Representantes de povos indígenas de diferentes regiões do Brasil se reúnem em Brasília para cobrar do governo federal a criação da Comissão Nacional da Verdade Indígena (CNIV). A proposta é que o país instale um mecanismo oficial para apurar violações cometidas contra indígenas, especialmente durante a ditadura militar, com foco em memória, verdade, reparação e garantias de não repetição.
A articulação do encontro é conduzida pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), pelo Instituto de Políticas Relacionais (IPR) e pelo Observatório dos Direitos e Políticas Indigenistas da Universidade de Brasília (Obind/UnB). O evento começou na terça-feira (21) e está programado para seguir até quinta-feira (23), na Casa de Retiro Assunção, na capital federal.
As organizações informam que, no fim do ano passado, o governo recebeu uma minuta de decreto presidencial que prevê a criação da CNIV. O texto teria o apoio formal de 58 instituições, além de avaliações jurídicas favoráveis.
Na prática, a mobilização busca acelerar a decisão do Executivo e garantir que a comissão seja instalada com estrutura e atribuições capazes de produzir investigações, reconhecer responsabilidades e orientar políticas de reparação às comunidades atingidas.
A programação conta com a presença de integrantes do “Fórum Memória, Verdade, Reparação Integral, Não Repetição e Justiça para os Povos Indígenas” e de pessoas afetadas diretamente por violências praticadas contra povos originários no período autoritário.
O encontro abre espaço para relatos e discussões sobre episódios que, segundo as entidades indígenas, permaneceram por décadas sem o devido reconhecimento estatal. A expectativa é reunir evidências e consolidar demandas para a criação de uma instância nacional dedicada ao tema.
Entre os casos que podem ser compartilhados estão denúncias de estruturas de encarceramento irregular em áreas indígenas administradas, à época, pelo antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, posteriormente, pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
De acordo com a Apib, nesses locais teriam ocorrido práticas como trabalho forçado e tortura física contra indígenas guarani. As organizações tratam esses episódios como parte de um conjunto de violações mais amplo, que inclui perseguições, deslocamentos e ataques a modos de vida tradicionais.
Durante a agenda em Brasília, estão previstos o lançamento e a apresentação de oito relatórios inéditos. Os documentos reúnem exemplos de violência e violações de direitos enfrentadas por povos indígenas ao longo dos anos do regime militar.
As entidades consideram que o material pode servir como base para ações futuras de responsabilização e para políticas públicas de reparação. Também deve reforçar o argumento de que a CNIV é necessária para sistematizar informações, ouvir vítimas e produzir recomendações oficiais.
O encontro também marca o lançamento do livro “Povos Indígenas e Justiça de Transição: Registros de Memórias que Denunciam Violências”. A obra compila investigações e depoimentos sobre crimes atribuídos ao período, como tortura, genocídio e deslocamento forçado.
Segundo a Apib, o livro sintetiza sete anos de trabalho das organizações envolvidas e é tratado como um registro relevante por reunir memória coletiva e documentação de violações. A publicação traz na capa a imagem de um ancião indígena que, de acordo com as entidades, foi vítima de tortura.
Ao defender a Comissão Nacional da Verdade Indígena, as organizações afirmam que a pauta está inserida no debate de justiça de transição — conjunto de medidas voltadas a reconhecer violações do passado, reparar vítimas e fortalecer garantias para que abusos não se repitam.
Para os participantes, a instalação de uma comissão específica é um caminho para dar visibilidade às violações sofridas por povos indígenas e para produzir respostas institucionais que alcancem, de forma efetiva, as comunidades impactadas.
Até o encerramento do encontro, a expectativa é que as entidades consolidem recomendações e reforcem a cobrança ao governo federal para que a CNIV seja criada por decreto e passe a operar com participação indígena e capacidade de investigação.
Fonte: Agência Brasil
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