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Tarifa de 25% dos EUA no etanol do Brasil deve ter efeito limitado

A tarifa adicional de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro deve provocar impactos pontuais sobre empresas exportadoras, mas esse efeito tende a ser limitado sobre o conjunto da economia brasileira. Especialistas ouvidos pela A

Por REDAÇÃO

22 de julho de 2026 às 12:37 ▪ Atualizado há 3 horas


Tarifa de 25% dos EUA no etanol do Brasil deve ter efeito limitado

A sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos para o etanol brasileiro deve pressionar empresas que vendem para o mercado norte-americano, mas a avaliação de especialistas é de que o impacto no conjunto da economia brasileira tende a ser restrito. O motivo principal é a perda de relevância dos EUA como destino do biocombustível exportado pelo Brasil nos últimos anos.

Hoje, os norte-americanos ainda aparecem como o segundo maior comprador do etanol nacional, mas respondem por uma fatia minoritária do volume embarcado. Para analistas, além do alcance econômico limitado, a medida carrega um componente político e amplia a sensação de imprevisibilidade nas relações comerciais com Washington.

EUA representam menos de 16% do volume exportado

Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, o equivalente a 1,6 bilhão de litros. A receita gerada com essas vendas externas ficou próxima de US$ 1 bilhão.

No mesmo período, os embarques para os Estados Unidos somaram aproximadamente 253 mil metros cúbicos, com faturamento de US$ 163 milhões. Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) indicam que o mercado norte-americano ficou com menos de 16% do volume exportado e com cerca de 17,5% da receita do etanol brasileiro.

Na prática, mais de 84% do volume vendido ao exterior (e cerca de 82,5% do faturamento) foi direcionado a outros países, o que reduz o potencial de um choque generalizado para o setor e para a balança comercial como um todo.

Especialistas veem baixa previsibilidade e recomendam diversificação

Para o professor Luiz Carlos Delorme Prado, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a participação dos EUA já vinha encolhendo antes do anúncio da tarifa. Na leitura dele, reverter essa tendência é improvável e o caminho mais racional é reforçar a busca por compradores alternativos.

O diagnóstico também passa pela falta de previsibilidade nas regras comerciais dos Estados Unidos durante o governo Donald Trump. Na avaliação do professor, decisões tarifárias guiadas por cálculo político elevam o risco para investimentos pensados especificamente para atender o mercado norte-americano, tornando mais prudente ampliar acordos e parcerias com destinos considerados mais estáveis.

Competitividade do etanol brasileiro favorece a abertura de novos mercados

Apesar do aperto tarifário, pesquisadores apontam que o Brasil tem vantagens estruturais na produção de etanol. Entre os fatores citados estão custo menor, produtividade agrícola elevada e condições de solo e clima favoráveis.

O professor Luis Augusto Barbosa Cortez, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), ressalta que os EUA produzem etanol principalmente a partir do milho, enquanto o Brasil tem longa tradição no etanol de cana-de-açúcar e, mais recentemente, vem ampliando a participação do milho.

Atualmente, cerca de 75% do etanol brasileiro é produzido a partir da cana, e 25% tem origem no milho. Segundo o pesquisador, essa parcela do milho cresce rapidamente: a projeção é chegar a 30% até 2030 e, em um horizonte mais longo, aproximar-se do peso da cana por volta de 2050.

Clima permite segunda safra e melhora eficiência

Entre os pontos que fortalecem a competitividade do etanol brasileiro, Cortez destaca a possibilidade de segunda safra de milho em muitas regiões do país. A lógica é produtiva: após a colheita da soja, o agricultor pode plantar milho e obter nova colheita no mesmo ano agrícola.

Nos Estados Unidos, esse modelo em grande escala é mais limitado por condições climáticas, especialmente em áreas com inverno rigoroso. O resultado é uma vantagem relativa para o Brasil na oferta de matéria-prima e no uso mais intensivo do solo.

Integração com pecuária e energia na usina reduzem custos

Outro argumento a favor do etanol brasileiro, segundo o coordenador do CCD Etanol, é a integração entre agricultura e pecuária. Subprodutos do processamento do milho podem ser aproveitados na alimentação animal, o que melhora a rentabilidade e pode reduzir a pressão por abertura de novas áreas de pasto.

No lado industrial, o uso de biomassa (como o bagaço) para gerar energia dentro das usinas também pesa a favor do Brasil. Parte significativa do consumo energético do processo pode ser suprida internamente, diminuindo custos. Já nos EUA, uma parcela maior da energia precisa ser adquirida externamente, o que tende a encarecer a produção.

Na comparação de produtividade, a cana também aparece como trunfo: o Brasil produz aproximadamente 7 mil litros de etanol por hectare de cana, enquanto a produtividade citada para os EUA chega, no máximo, a 5 mil litros por hectare.

Medida tem leitura política, dizem analistas

Para o professor Niels Soendergaard, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a iniciativa norte-americana tem natureza essencialmente política, ainda que venha acompanhada de justificativas técnicas. Ele avalia que o uso de tarifas pode funcionar como instrumento de pressão econômica com objetivo de influenciar cenários políticos na região.

Do ponto de vista técnico, Soendergaard argumenta que o Brasil segue regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que a queda das importações de etanol dos EUA estaria ligada ao aumento da produção nacional baseada em milho. Para o professor, declarações desconectadas dos dados e mudanças frequentes de postura tornam o governo norte-americano um interlocutor de baixa confiabilidade para negociações previsíveis.

Entenda as justificativas dos EUA e a resposta do Brasil

Os Estados Unidos afirmam que a tarifa adicional se apoia em uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). O relatório questiona práticas que, segundo Washington, seriam discriminatórias ou prejudiciais à economia norte-americana.

Entre os tópicos levantados estão acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras relacionadas a comércio digital e sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, medidas anticorrupção e desmatamento ilegal.

O governo brasileiro contesta essas alegações e rejeita a interpretação de que haja irregularidades que justifiquem a medida. Para especialistas, diante do peso reduzido dos EUA nas exportações do setor, a reação mais provável do Brasil é acelerar a diversificação de destinos para o etanol e fortalecer estratégias de inserção em mercados considerados mais confiáveis.

Fonte: Agência Brasil



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