Judiciário e gênero
Por Admin
14 de abril de 2026 às 11:35
A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia afirmou nesta segunda-feira (13) que já ouviu de familiares pedidos para deixar a Corte, em razão de ataques machistas dirigidos a ela. A declaração foi feita durante a palestra “O Brasil na visão das lideranças públicas”, no Instituto FHC, em São Paulo.
Na exposição, a magistrada abordou o impacto que agressões e campanhas de desqualificação têm sobre a vida pública de autoridades, especialmente quando os alvos são mulheres. Cármen Lúcia é a única mulher a integrar atualmente o STF.
Ao tratar do tema, Cármen Lúcia mencionou um episódio que, segundo ela, ilustra como situações corriqueiras podem ser transformadas em munição para ataques pessoais. A ministra contou que, após perceber que havia esquecido fósforos para acender um cigarro, entrou em um bar para comprar.
De acordo com o relato, o fato ganhou repercussão e foi interpretado de forma distorcida, com insinuações que atingiram sua reputação. Para a ministra, esse tipo de narrativa revela como a exposição pública pode ser manipulada para constranger e desmoralizar.
Durante a palestra, a ministra afirmou que pedidos de familiares para que autoridades deixem funções públicas não são raros, mas tendem a ser mais frequentes quando a pessoa alvo de ataques é mulher. Ela citou que, em muitos casos, parentes pressionam para que a vida pública seja interrompida como forma de proteção.
Cármen Lúcia argumentou que, enquanto críticas a homens em cargos de poder costumam se concentrar em questionamentos sobre gestão ou competência administrativa, no caso de mulheres o ataque frequentemente assume caráter sexista e com objetivo de humilhação. Na fala, ela descreveu esse tipo de discurso como machista e voltado a destruir a imagem pública.
A ministra também relatou que, no âmbito familiar, escuta cobranças para que se afaste do cargo sob o argumento de que já teria cumprido sua missão institucional. Segundo ela, o efeito acumulado desses episódios gera pressão emocional e social sobre quem permanece na função.
Além de mencionar sua própria experiência, Cármen Lúcia citou o caso de uma colega que, segundo relatou, desistiu de disputar a reeleição em razão de dificuldades enfrentadas pela família. De acordo com o exemplo apresentado, a filha da autoridade precisou morar em outra cidade com a avó para conseguir frequentar a escola.
Para a ministra, situações como essa indicam um problema estrutural: a combinação de hostilidade pública, cobranças privadas e obstáculos de logística familiar pode afastar mulheres e outras pessoas da participação em cargos eletivos ou de liderança. Ela classificou as informações e ataques divulgados em certos contextos como degradantes e voltados à desmoralização.
O tema da violência e da intimidação contra autoridades também apareceu em declarações recentes da ministra. No mês passado, Cármen Lúcia contou, em outra palestra, que teria sido avisada sobre uma possível ameaça envolvendo uma bomba, supostamente com intenção de matá-la.
Na ocasião, ela afirmou ter recebido o comunicado pouco antes de participar de um evento com estudantes e disse que não tinha confirmação de que se tratava de um fato consumado, mas relatou estar sendo informada e contatada a respeito. A ministra destacou que seguia participando das atividades normalmente.
As falas de Cármen Lúcia costumam incluir discussões sobre violência de gênero e a presença de mulheres em espaços de poder, como a política e o Judiciário. Em suas participações públicas, ela tem abordado o ambiente de hostilidade enfrentado por autoridades e como isso pode funcionar como mecanismo de afastamento, especialmente quando se combinam ataques pessoais, desinformação e intimidação.
Ao tratar desses episódios, a ministra reforçou a necessidade de enfrentar o que vê como um processo grave, em que ataques e campanhas de desmoralização atravessam a esfera institucional e atingem a vida privada de quem exerce funções públicas.
O STF, onde Cármen Lúcia atua como ministra, é o órgão máximo do Judiciário brasileiro e tem papel central em decisões constitucionais. O relato da magistrada chama atenção para os efeitos do discurso de ódio e do machismo no debate público e para os desafios de garantir condições de participação e permanência de mulheres em posições de liderança.
Fonte: UrbNews
Opinião pública
Cooperação internacional
Saúde pública
Calendário eleitoral 2026
Pesquisa Datafolha
Eleições 2026