Mobilização antirracista
Por REDAÇÃO
26 de julho de 2026 às 17:30 ▪ Atualizado há 50 minutos
Milhares de mulheres negras ocuparam a orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, neste domingo (26), em uma manifestação que reuniu pautas por democracia, enfrentamento ao racismo, reparação histórica e condições dignas de vida. O ato marcou a 12ª edição da Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro e teve como foco a cobrança por políticas públicas capazes de reduzir desigualdades estruturais.
Com faixas, camisetas e palavras de ordem, participantes destacaram que o combate ao racismo não pode ficar restrito a ações pontuais. A mobilização buscou ampliar o debate sobre justiça social, acesso a direitos e o impacto das desigualdades na vida das mulheres negras.
A manifestação ocorreu na sequência de duas datas de forte significado: o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, lembrados no sábado (25). Para organizadoras e participantes, o calendário reforça a necessidade de manter a agenda antirracista presente no cotidiano e no poder público, e não apenas em momentos comemorativos.
A coordenadora do Fórum Estadual de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, Clátia Vieira, afirmou que a defesa do “bem viver” depende, necessariamente, de medidas de reparação. Segundo ela, uma etapa fundamental é garantir escuta ativa das mulheres negras na formulação de políticas.
Na avaliação de Clátia, tratar o racismo como elemento estruturante é indispensável para enfrentar a desigualdade. Ela também apontou a relação entre racismo e modelo econômico, destacando consequências como desemprego, instabilidade e vulnerabilidade social que atingem com mais força mulheres negras.
Entre as pessoas que caminharam em Copacabana estava a educadora Bárbara Carine, que participou acompanhada de familiares. Para ela, levar crianças a espaços de mobilização tem papel educativo e político, ajudando a construir consciência de direitos e pertencimento desde cedo.
Bárbara avaliou que a marcha também é um momento de olhar para conquistas históricas e, ao mesmo tempo, projetar um futuro com mais dignidade. Na visão dela, o objetivo é avançar além das pautas de sobrevivência e construir condições reais de bem viver para a população negra.
Ao longo do percurso, a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 em um crime de motivação política, voltou a aparecer como referência em cartazes, camisetas e discursos. O nome de Marielle foi citado como símbolo de resistência e de incentivo à participação política de mulheres negras.
A mãe da vereadora, Marinete Silva, acompanhou o ato. Ela lembrou que Marielle já havia participado da marcha em 2017 e defendeu que a presença de mulheres nas instituições é decisiva para ampliar direitos e enfrentar desigualdades. Para Marinete, a memória da filha segue impulsionando mobilização e não permite que a luta seja silenciada.
Além das falas políticas, a marcha incorporou apresentações artísticas durante o trajeto. Grupos como Afrolaje, Angoleiras e Obara Ylê de Ouro se apresentaram, destacando a ancestralidade, a resistência e a força da produção cultural negra.
Para participantes, a presença da arte no protesto amplia a mensagem do ato e reforça a identidade coletiva. O casal Cinthia Garcia e Laísse Santos, que foi de Maricá para participar, definiu a experiência como um encontro com o pertencimento.
As duas também chamaram atenção para a dimensão cotidiana do racismo, que pode aparecer em críticas e tentativas de controle sobre a forma de existir. Para elas, a marcha reafirma o direito de usar elementos identitários e ancestrais — como cabelos, roupas e turbantes — com liberdade e orgulho.
Cinthia e Laísse trabalham com afroturismo em Maricá e ressaltaram que o racismo também se expressa no apagamento das contribuições negras para a formação das cidades e do país. Segundo elas, narrativas oficiais frequentemente valorizam figuras brancas como protagonistas, enquanto invisibilizam quem construiu territórios, desenvolveu técnicas e sustentou economicamente a sociedade.
Para o casal, recuperar histórias silenciadas é parte do processo de reparação e de construção de memória. Elas defendem que reconhecer essas trajetórias tem impacto direto em autoestima, pertencimento e formulação de políticas públicas voltadas a equidade.
A 12ª Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, ao reunir milhares em Copacabana, reforçou a centralidade do debate sobre racismo estrutural, democracia e justiça social. O recado do ato foi direto: sem reparação e sem políticas efetivas, não há bem viver possível.
Fonte: Agência Brasil
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