Endividamento no Brasil
Por Admin
19 de abril de 2026 às 19:00
Uma pesquisa Datafolha indica que o endividamento faz parte do dia a dia da maioria dos brasileiros. Segundo o levantamento, cerca de dois em cada três entrevistados afirmam ter algum tipo de dívida financeira, como empréstimos. Dentro desse grupo, 21% dizem estar com contas em atraso.
O estudo também mapeou o peso de diferentes modalidades de crédito e o impacto da falta de fôlego no orçamento, além de medir a percepção sobre a situação econômica do país.
O Datafolha apurou que o endividamento não se restringe ao sistema bancário. Entre os que recorreram a dinheiro emprestado com amigos ou familiares, 41% afirmam que ainda não pagaram o valor devido.
Quando o assunto é atraso de pagamentos ligados a dívidas, o cartão de crédito parcelado aparece como um dos principais focos: 29% dos que têm esse tipo de débito relatam inadimplência. Na sequência, vêm empréstimos bancários (26%) e carnês de lojas (25%).
O levantamento mostra que 27% dos entrevistados dizem utilizar o crédito rotativo do cartão com alguma frequência. Essa modalidade entra em ação automaticamente quando o consumidor paga apenas o valor mínimo da fatura, empurrando o restante para o mês seguinte com cobrança de juros.
Entre os usuários do rotativo, 5% afirmam recorrer a ele com frequência elevada, enquanto 22% dizem usar às vezes ou raramente.
Dados do Banco Central apontam que o rotativo é a linha mais cara do mercado, com taxa média de 14,9% ao mês. Há ainda limites regulatórios: desde 2024, passou a valer uma regra que impede que a dívida do cartão ultrapasse o dobro do valor originalmente devido.
Para a economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, a combinação entre maior acesso ao sistema financeiro e a alta dos juros ampliou o comprometimento da renda e ajudou a elevar a inadimplência.
Além de empréstimos e cartão, a pesquisa investigou atrasos em contas de serviços e consumo. Nesse recorte, 28% afirmam ter algum pagamento pendente.
Entre os tipos de contas mais citados por quem está inadimplente aparecem telefone, celular e internet (12%), tributos e cobranças como IPTU, IPVA e carnê-leão (12%), além de energia elétrica (11%) e água (9%).
O Datafolha criou um indicador de “aperto financeiro” a partir de oito sinais de restrição no orçamento, como reduzir consumo, deixar de pagar dívidas ou mudar hábitos. A classificação foi dividida em quatro níveis: severa, apertada, moderada e leve/isenta.
O resultado aponta que 27% estão em situação apertada e 18% em condição severa — soma de 45%. Outros 36% foram classificados como moderados, e 19% aparecem no grupo leve ou isento.
Para tentar equilibrar as contas, 64% dizem ter cortado gastos com lazer. Também são comuns mudanças como comer fora menos vezes (60%), substituir marcas por opções mais baratas (60%) e reduzir a quantidade de alimentos comprados (52%).
Metade (50%) afirma ter diminuído consumo de água, luz e gás. Já 40% relatam que deixaram de pagar alguma conta, 38% interromperam o pagamento de dívidas e o mesmo percentual informou ter reduzido compras de remédios.
Quando questionados de forma espontânea sobre o principal problema pessoal, a maior parcela dos brasileiros citou questões financeiras. Somados temas como falta de dinheiro, endividamento, custo de vida, salário baixo e previdência, o total chega a 37%.
A resposta mais frequente foi “questões financeiras/falta de dinheiro/renda”, mencionada por 27%. Em seguida aparecem “endividamento” (5%) e “custo de vida/inflação/impostos” (2%).
Depois, foram lembrados assuntos ligados à saúde (18%), trabalho (8%) e relacionamentos familiares e pessoais (5%). A parcela que afirma não ter problemas é de 14%.
De acordo com o levantamento, 57% dos brasileiros dizem usar cartão de crédito. Dentro desse grupo, 13% afirmam parcelar compras de supermercado sempre ou com frequência. Já 4% dizem parcelar contas como água e luz.
Outra prática mapeada é pagar a fatura de um cartão usando o limite de outro: 5% dizem fazer isso sempre ou frequentemente, e 10% relatam que fazem às vezes.
Isabela Tavares avalia que o uso do crédito cresceu nos últimos anos, ao mesmo tempo em que os juros subiram. Somado ao aumento nos preços de alimentos, esse cenário pode levar famílias a buscar crédito emergencial para cobrir despesas.
A pesquisa também investigou a percepção sobre comportamentos financeiros. Para 68%, ofertas de crédito por celular ou internet estimulam o endividamento por impulso. Além disso, 51% concordam totalmente que é difícil fechar o mês sem recorrer ao cartão de crédito.
Segundo Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV e professor da FGV EAESP, a ampliação da oferta de crédito com a abertura do mercado ajuda a explicar o nível elevado de endividamento. Ele cita ainda fatores como o quadro macroeconômico — com taxa básica de juros em 14,75% ao ano e inflação de 4,14% em 12 meses — e a falta de educação financeira.
Sobre organização do orçamento, 44% dizem manter controle detalhado dos gastos. Outros 32% têm algum acompanhamento, mas não conseguem mapear tudo. Já 23% afirmam não fazer nenhum tipo de controle.
A ausência de reserva também é expressiva: 66% dizem não ter poupança. Entre os que guardam algum valor, 12% afirmam que as economias durariam menos de três meses. Outros 10% dizem conseguir se manter por três a seis meses em caso de perda de renda.
O tema ganhou espaço na campanha eleitoral e tem motivado anúncios do governo Lula, incluindo iniciativas de renegociação de dívidas e medidas como saques extraordinários do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço).
Ao avaliar o clima econômico do país, 49% dizem se sentir mal ou muito mal. Para Gonzalez, mesmo com melhora de renda, quando a dívida ocupa grande parte do orçamento a sensação de bem-estar tende a piorar, com impacto na percepção social e política.
A pesquisa Datafolha ouviu 2.002 pessoas com 16 anos ou mais, em 117 municípios, nos dias 8 e 9 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Com informações de Maeli Prado e Júlia Moura, da Folhapress.
Fonte: UrbNews
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