Segurança internacional
Por Admin
11 de março de 2026 às 16:01
O governo de Donald Trump passou a tratar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como riscos relevantes à segurança regional, citando envolvimento com tráfico de drogas, violência e atuação além das fronteiras do Brasil. A avaliação foi atribuída a um porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Segundo reportagem do UOL, Washington já teria decidido enquadrar as duas organizações na categoria de terrorismo. Em posicionamento enviado à Folha de S.Paulo, porém, o Departamento de Estado não confirma uma eventual designação e afirma que não antecipa decisões do tipo, embora diga estar disposto a adotar medidas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas.
No Brasil, a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atua para impedir que PCC e CV sejam formalmente classificados como terroristas pelo governo americano. O assunto, segundo relatos, é acompanhado pelo Planalto desde o ano passado, quando a possibilidade passou a ser discutida com maior intensidade.
À Folha, uma autoridade brasileira que participou de reuniões com integrantes do governo Trump relatou que representantes dos EUA estiveram no Brasil para reunir informações sobre as facções. De acordo com esse relato, os americanos buscaram dados sobre estrutura, funcionamento e operações dos grupos, mas não teriam aberto espaço para que o Brasil apresentasse sua própria interpretação sobre o conceito de terrorismo.
Por essa razão, a hipótese de mudança no enquadramento não foi recebida como surpresa dentro do governo brasileiro, ainda que seja vista como um tema sensível do ponto de vista diplomático e de segurança.
Nos Estados Unidos, a Folha de S.Paulo ouviu três funcionários ligados à diplomacia brasileira, sob condição de anonimato. Eles disseram que há registro de integrantes das facções em território americano, com atuação principalmente voltada à lavagem de dinheiro. Ainda assim, também existem ocorrências associadas ao tráfico de drogas.
Conforme esses relatos, Flórida e Massachusetts aparecem como os estados com maior presença de membros do PCC e do CV. Esses mesmos estados, por outro lado, concentram parcelas expressivas da população brasileira que vive nos EUA, o que pode influenciar a dinâmica de redes de apoio e circulação financeira.
Nas últimas semanas, Lula afirmou que pretende se reunir com Trump em Washington, embora ainda não haja data definida. A expectativa, nos bastidores, é que o tema das facções e do combate ao crime organizado entre na pauta caso o encontro se concretize.
O presidente brasileiro tem defendido um modelo de cooperação bilateral para enfrentar o crime organizado, baseado em um projeto encaminhado ao Departamento de Estado. Segundo uma fonte ligada ao governo americano, a proposta não teria avançado porque descreve as facções como “narcoterroristas”, terminologia que pode ampliar o peso político da discussão e gerar efeitos jurídicos.
Apesar da tentativa do governo federal de bloquear a possível designação, o debate ganhou combustível interno no ano passado. Parlamentares e governadores alinhados à direita solicitaram ao governo Trump que o Comando Vermelho fosse tratado como organização terrorista.
O governo do Rio de Janeiro, liderado por Cláudio Castro (PL), chegou a encaminhar a Washington um documento defendendo essa classificação. O CV surgiu no Rio e tem histórico de violência e controle territorial associado ao varejo de drogas e a disputas armadas.
Para Douglas Farah, especialista em crime transnacional que já assessorou o Departamento de Estado em diferentes administrações (Barack Obama, Joe Biden e no primeiro mandato de Trump), os efeitos concretos da designação tendem a ser limitados no curto prazo.
Na avaliação dele, a principal consequência seria o reforço de instrumentos legais e de inteligência à disposição das autoridades americanas. Isso pode incluir mais capacidade de monitorar fluxos financeiros, rastrear indivíduos vinculados às facções e impor sanções.
Ao mesmo tempo, Farah pondera que PCC e CV não teriam presença robusta nem estruturas financeiras formais relevantes dentro dos EUA, o que reduziria o impacto direto. A medida, portanto, poderia produzir mais repercussão política do que resultados imediatos no enfraquecimento das organizações.
O especialista também alerta para o risco de diluição do conceito de terrorismo. Na visão dele, facções como PCC e CV se encaixam com mais precisão na lógica do crime organizado: usam violência para controlar mercados ilegais e garantir ganhos, mas não teriam como objetivo central a intimidação política típica de grupos terroristas internacionais.
Farah cita como contraste organizações como a Al-Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de Setembro, cuja estratégia envolvia ações com finalidade política e impacto simbólico global. Para ele, ampliar demais o uso da categoria pode reduzir sua eficácia e clareza.
Farah afirma ainda que uma eventual designação não significa, por si só, autorização para ações americanas em território brasileiro. Qualquer operação desse tipo dependeria de consentimento do governo do Brasil, cenário que ele considera improvável nas condições atuais.
Segundo o especialista, mesmo em casos de atuação contra cartéis em outros países, os EUA buscaram enquadrar as iniciativas como cooperação com autoridades locais. Uma ação unilateral no Brasil teria alto custo diplomático e econômico, dado o peso do país na região.
O analista também vê, no pano de fundo do debate, uma possível retomada da ideia de militarizar a política antidrogas, estratégia que ganhou força nos anos 1980. Na avaliação dele, esse caminho já mostrou resultados limitados e pode trazer efeitos colaterais graves, como violações de direitos humanos e aumento da influência política de militares em países latino-americanos.
Se confirmada, a eventual classificação de PCC e CV como terroristas deve gerar forte repercussão política e midiática, mas pode não alterar de forma substantiva o cotidiano do combate às facções no Brasil, ao menos no curto prazo.
Fonte: UrbNews