Futebol feminino
Por Admin
08 de março de 2026 às 12:00
A história de muitas jogadoras brasileiras começa longe dos grandes centros de treinamento: nasce na rua, no campinho do bairro, em partidas improvisadas com primos, vizinhos e amigos. Com a zagueira Emely, do Ceará, não foi diferente. A defensora transformou brincadeira de infância em caminho profissional e, neste Dia Internacional da Mulher, sua trajetória evidencia os obstáculos que ainda marcam o futebol feminino.
Emely conta que a bola entrou cedo na rotina, quando ainda era criança. Aos poucos, o que era diversão virou compromisso: vieram os treinos, o primeiro time e o desejo de seguir no esporte. Para ela, o futebol não surgiu como escolha pontual, mas como pertencimento, algo que se impôs pela paixão e pela constância.
A zagueira relembra que começou a jogar por volta dos oito anos. Era a típica cena de bairro: jogos na rua e encontros com familiares, principalmente com os primos. Nesse ambiente, ela se destacou e passou a buscar espaços mais estruturados, até integrar uma equipe.
Esse salto do improviso para um clube, no entanto, não eliminou as dificuldades. Como ocorre com muitas meninas que querem seguir carreira esportiva, o processo envolveu resistência, falta de incentivo e a necessidade de provar, desde cedo, que o sonho era sério.
Parte das barreiras apareceu dentro do próprio lar. Emely relata que, no início, a mãe tentava afastá-la do futebol, argumentando que seria uma prática “de menino” e sugerindo atividades consideradas mais “femininas”, como balé ou brinquedos tradicionais.
Mesmo com as críticas, ela insistiu no desejo de jogar. O enfrentamento, segundo a atleta, não era só com desconhecidos: também envolvia contrariar expectativas familiares e sociais sobre o que uma menina deveria fazer.
Com o tempo, a percepção da família mudou. Quando Emely entrou em um clube, o apoio ganhou corpo e se tornou decisivo para a continuidade do projeto esportivo. A defensora destaca que a ajuda financeira e logística fez diferença, especialmente para arcar com despesas e garantir presença em treinos e partidas.
No futebol feminino, a falta de recursos costuma ser um dos primeiros fatores de desistência. Transporte, alimentação, material esportivo e taxas diversas pesam, principalmente para quem está começando. Emely aponta que o suporte familiar, depois de consolidado, funcionou como base para atravessar essa etapa.
O incentivo também trouxe um efeito simbólico: quando a família passa a reconhecer o futebol como objetivo legítimo, a atleta ganha força para lidar com críticas externas e seguir em busca de espaço no esporte.
Mesmo com avanços recentes, Emely afirma que o machismo segue presente na trajetória de muitas jogadoras. Ela recorda que, ao longo dos anos, ouviu frases que tentavam desqualificar seu esforço, colocando o futebol como território exclusivamente masculino e questionando se o esporte traria retorno.
Emely relata que chegou a atuar em ambientes com meninos e que, em diversas ocasiões, o desempenho foi a forma de reverter o discurso preconceituoso. Para ela, a principal resposta não vem de discussões, mas do rendimento: entregar resultados em campo, cumprir função defensiva e ajudar a equipe a competir são maneiras de mostrar competência e silenciar críticas.
A zagueira explica que prefere não “bater de frente” verbalmente. Em vez disso, escolhe deixar o jogo falar. Na avaliação da atleta, a consistência e a performance funcionam como argumento mais forte do que qualquer debate.
Emely também chama atenção para a pressão adicional sobre atletas mulheres. Em um cenário historicamente comandado por homens, ela entende que a exigência costuma ser maior: é preciso demonstrar qualidade de forma constante para conquistar respeito e credibilidade.
Além da avaliação técnica, há comentários que tentam minimizar o mérito das jogadoras, como se os resultados fossem “menores” por serem alcançados por mulheres. Para a defensora do Ceará, esse tipo de postura ainda reflete uma visão ultrapassada, que ignora o crescimento do futebol feminino.
Apesar disso, Emely enxerga um movimento irreversível de ocupação. Ela afirma que ainda existem homens que vivem em uma “bolha” e acreditam que o futebol deve permanecer como espaço exclusivo deles. A zagueira, porém, reforça que as atletas estão ampliando presença, buscando oportunidades e mostrando, na prática, que podem estar onde desejam — com o mesmo direito de disputar, treinar e construir carreira.
Ao transformar a infância no bairro em profissão, Emely resume uma realidade comum a muitas brasileiras: talento existe, mas o caminho exige persistência, rede de apoio e coragem para enfrentar estigmas. No Dia Internacional da Mulher, a história da zagueira do Ceará se soma a outras que ajudam a redefinir o lugar das mulheres no esporte, dentro e fora das quatro linhas.
Fonte: UrbNews