Tensão no petróleo

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Petróleo Brent salta 6% após ataques houthis e tensão no Mar Vermelho

Após ataques dos houthis, do Iêmen, contra navios da Arábia Saudita, no Mar Vermelho, o preço do barril de petróleo voltou a disparar com aumento de 6% do óleo do tipo Brent, chegando a ser vendido a US$ 101 dólares no início da tarde desta quinta-fe

O preço do petróleo voltou a subir com força nesta quinta-feira (23) após novos ataques atribuídos aos houthis, do Iêmen, contra embarcações ligadas à Arábia Saudita no Mar Vermelho. No início da tarde, o barril do tipo Brent avançava cerca de 6% e chegou a ser negociado na faixa de US$ 101, em meio ao aumento da percepção de risco no Oriente Médio.

A escalada ocorre em um momento de forte sensibilidade do mercado, que vinha acompanhando restrições de oferta e gargalos logísticos. O agravamento do quadro no Mar Vermelho reacende temores sobre interrupções no comércio marítimo de combustíveis e sobre efeitos em cadeia, com potencial de pressionar fretes e, por consequência, a inflação em diversos países.

Bloqueio em Bab el-Mandeb amplia risco para a logística global

Segundo relatos citados na cobertura do tema, os houthis passaram a restringir a navegação no Estreito de Bab el-Mandeb para navios da Arábia Saudita. O ponto é estratégico por conectar o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, rota fundamental para fluxos de energia e cargas que seguem rumo ao Canal de Suez.

A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Ticiana Álvares, afirmou à Agência Brasil que o fechamento dessa via tem impacto relevante. Ela explicou que, diante das limitações no Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita vinha utilizando alternativas para escoar parte da produção por oleodutos até o litoral do Mar Vermelho. Com novas restrições em Bab el-Mandeb, essa opção se torna mais difícil.

Para a especialista, a situação pode refletir na disponibilidade de petróleo e derivados para mercados consumidores. Ela observou que os Estados Unidos utilizam petróleo saudita na produção de combustíveis como gasolina e diesel, o que tende a aumentar a atenção sobre eventuais cortes de oferta e custos adicionais de transporte.

Mercado já vinha pressionado após meses de oferta menor

O salto do Brent acontece após um período de cinco meses em que o mercado acumulou redução na oferta, em meio ao aumento das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã desde o fim de fevereiro. Na mesma sequência de eventos, o Estreito de Ormuz — passagem por onde transitava cerca de 20% do comércio marítimo de combustíveis — foi fechado, elevando o prêmio de risco na formação dos preços.

Depois da assinatura de um memorando de entendimento entre Irã e EUA, em 17 de junho, as cotações recuaram e chegaram a um piso por volta de US$ 70 em 1º de julho, no menor patamar desde o início do conflito. Desde então, o Brent acumulou alta expressiva, na casa de 42%, até o novo avanço registrado nesta quinta.

O movimento reflete a combinação de fatores: risco geopolítico, incerteza sobre rotas seguras de navegação e expectativa de impacto na oferta física. Em mercados de energia, qualquer sinal de interrupção em pontos de estrangulamento marítimo costuma gerar reprecificação rápida, tanto pela possível falta do produto quanto pelo aumento de custos de seguros e fretes.

Impacto pode atingir EUA, Europa e rotas Ásia–Suez

As preocupações não se limitam à Arábia Saudita. Ticiana Álvares destacou que, se o bloqueio em Bab el-Mandeb se ampliar para um fechamento mais generalizado, a Europa tende a sentir o choque de forma intensa. Isso porque parte relevante das cargas que saem da Ásia em direção ao continente europeu atravessa o Mar Vermelho, encurtando trajetos e custos quando comparado a rotas alternativas mais longas.

A especialista avaliou que a consequência imediata pode ser o encarecimento do frete marítimo, com efeito sobre cadeias de abastecimento além do setor de energia. Em cenários de desvio de rota — como contornar a África —, o tempo de viagem aumenta, elevando consumo de combustível dos navios e pressionando preços finais.

A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que aproximadamente 10% do comércio marítimo de petróleo transite pelo Bab el-Mandeb e pelo Mar Vermelho, o que ajuda a explicar por que qualquer instabilidade na região tem capacidade de reverberar rapidamente nas cotações internacionais.

Especialistas veem nova fase na guerra e perdas para a Arábia Saudita

O diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), Rodolfo Queiroz Laterza, afirmou à Agência Brasil que as perdas econômicas para a Arábia Saudita tendem a ser substanciais. Para ele, o cenário agrava cadeias logísticas globais e aumenta o custo para economias dependentes de importação de petróleo e derivados.

Já o professor de relações internacionais da PUC Minas, Danny Zahreddine, avalia que o confronto entre Irã e EUA entra em uma nova etapa com a atuação dos houthis em Bab el-Mandeb. Na leitura do pesquisador, quando Washington intensifica a pressão sobre Teerã, aliados regionais do Irã podem ampliar a resposta contra interesses dos EUA e de parceiros.

Zahreddine acrescentou que a instabilidade tende a afetar não apenas cargas associadas à Arábia Saudita, mas também qualquer transporte que dependa do corredor Mar Vermelho–Canal de Suez, incluindo fluxos entre Europa, EUA e países asiáticos como China, Malásia, Indonésia e Singapura. Por ser uma rota mais curta e eficiente, o impacto de restrições na passagem se torna imediato para o comércio.

Guerra no Iêmen volta ao centro do tabuleiro regional

Laterza também apontou que a ofensiva envolvendo Israel e EUA contra o Irã reativou frentes antes menos intensas, como o conflito no Iêmen. Ele lembrou que as hostilidades no país haviam sido interrompidas em 2022 por um acordo considerado frágil, com intermediação da China.

De acordo com o pesquisador, ataques aéreos sauditas recentes — citados no contexto da crise — teriam contribuído para a resposta dos houthis, grupo que, segundo ele, demonstra capacidade de negar o uso do Mar Vermelho e de impor restrições no Estreito de Bab el-Mandeb. Laterza ainda mencionou o uso de armamentos como mísseis antinavio, mísseis balísticos, sistemas hipersônicos e drones.

Com a soma de bloqueios, ataques e incertezas diplomáticas, o horizonte para os preços globais de hidrocarbonetos permanece desfavorável, enquanto governos e empresas acompanham o risco de novos choques de oferta e de pressão inflacionária.