Cultura na Amazônia

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Theatro da Paz e Teatro Amazonas viram Patrimônio Mundial da Unesco

O Theatro da Paz, em Belém (PA), e o Teatro Amazonas, em Manaus (AM), receberam o título de Patrimônio Mundial Cultural da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A candidatura conjunta foi aprovada na madrugada

O Theatro da Paz, em Belém (PA), e o Teatro Amazonas, em Manaus (AM), foram incluídos na lista de Patrimônio Mundial Cultural da Unesco. A aprovação ocorreu na madrugada desta segunda-feira (27), após análise da candidatura apresentada de forma conjunta.

Os dois edifícios, inaugurados no fim do século 19, são considerados símbolos do período em que a região amazônica registrou forte expansão econômica impulsionada pela extração do látex e pelo comércio da borracha. Mesmo com diferenças de estilo e com 18 anos entre as inaugurações, as casas compartilham a proposta de consolidar polos culturais na Amazônia e trazem, em suas estruturas, ampla presença de materiais e referências europeias.

Candidatura conjunta como “Teatros da Amazônia”

Pela conexão histórica e pela relevância cultural semelhante, Belém e Manaus levaram à Unesco um dossiê unificado, com a denominação de “Teatros da Amazônia”. A estratégia buscou evidenciar como os dois espaços dialogam entre si no contexto do auge da borracha, quando a região recebia investimentos e vivia um ciclo de modernização urbana.

Com o novo reconhecimento, o Brasil soma 26 bens culturais, naturais ou mistos na lista internacional da Unesco. Entre os exemplos já reconhecidos estão cidades como Brasília e Ouro Preto, centros históricos como os de Salvador e São Luís, além de áreas naturais, caso do Complexo de Conservação da Amazônia Central, e sítios mistos que reúnem cultura e biodiversidade, como Paraty e Ilha Grande.

Theatro da Paz: ópera, neoclassicismo e identidade amazônica

Localizado na capital paraense, o Theatro da Paz foi inaugurado em 1878 e teve como base um projeto do engenheiro José Tibúrcio Pereira Magalhães. A inspiração principal veio do Teatro alla Scala, de Milão, uma referência mundial quando o objetivo era associar prestígio e sofisticação ao circuito cultural.

A obra começou ainda na década de 1860, com execução entre 1869 e 1874. No entanto, denúncias relacionadas a custos e gestões públicas levaram a um inquérito, o que atrasou a abertura oficial: o teatro só foi inaugurado após a conclusão das investigações.

Do ponto de vista arquitetônico, o prédio foi pensado para unir o neoclassicismo a elementos amazônicos, além de atender às exigências de um teatro de ópera. Um dos destaques é o fosso de orquestra, concebido para favorecer a integração entre música ao vivo e a projeção vocal em apresentações líricas.

Ao longo do tempo, o espaço passou por intervenções voltadas a correções estruturais e ao alinhamento do conjunto ao desenho neoclássico previsto no projeto. Entre as adaptações mencionadas está a instalação de uma caixa d’água de 40 mil litros sob o fosso, que auxiliava tanto no abastecimento do sistema de resfriamento quanto no aprimoramento acústico das sessões.

O Theatro da Paz é apontado como o primeiro teatro de ópera da Amazônia e figura entre os primeiros teatros líricos do país. O edifício também detém o reconhecimento nacional como teatro-monumento e patrimônio histórico, concedido pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Teatro Amazonas: cúpula icônica e materiais europeus

No Centro Histórico de Manaus, o Teatro Amazonas foi inaugurado em 1896. O projeto arquitetônico é atribuído ao deputado provincial Antônio José Fernandes Júnior e foi escolhido em 1883 pelo Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura, sediado em Lisboa.

Assim como ocorreu em Belém, o empreendimento enfrentou entraves antes de sair do papel. Os altos custos e um impasse sobre o terreno destinado ao edifício contribuíram para a demora. A condução do canteiro de obras ficou sob coordenação do arquiteto italiano Celestial Sacardim.

O teatro apresenta traços do estilo renascentista e incorporou, em grande escala, materiais importados da Europa. Um dos elementos mais conhecidos é a cúpula, composta por 36 mil peças nas cores da bandeira brasileira, trazidas da Alsácia (França), que se tornou marco visual do prédio.

Na área interna, o decorador pernambucano Crispim Amaral combinou referências neoclássicas com outras influências, resultando em uma linguagem eclética. Já a ornamentação do Salão Nobre ficou a cargo do italiano Domenico de Angelis, incluindo o afresco “A Glorificação das Bellas Artes na Amazônia”.

O Teatro Amazonas mantém, até hoje, parte significativa de sua arquitetura e decoração originais. O edifício é tombado pelo Iphan como Patrimônio Histórico Nacional desde 1966.

Reconhecimento da Unesco reforça preservação e turismo cultural

A inscrição dos Teatros da Amazônia na lista de Patrimônio Mundial Cultural tende a ampliar a visibilidade internacional dos dois espaços e fortalecer políticas de conservação. Além do valor arquitetônico, a decisão destaca a importância desses teatros como símbolos de um período histórico decisivo para a região e como centros vivos de produção artística.

Com o novo status, Theatro da Paz e Teatro Amazonas passam a integrar um conjunto de bens reconhecidos globalmente, ampliando o potencial para turismo cultural, ações educativas e parcerias voltadas à proteção do patrimônio.