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Angela Davis na Flip debate cultura, racismo ambiental e gentrificação

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e também Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrados neste sábado (25), a ativista e pesquisadora Angela Davis foi um dos destaques da programação da 24ª Festa Lit

Celebrado neste sábado (25), o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha — que no Brasil também marca o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra — ganhou destaque na programação paralela da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A ativista, filósofa e pesquisadora Angela Davis participou de uma conversa aberta ao público e gratuita no Sesc Caborê, em Paraty (RJ), em atividade mediada pela jornalista Flávia Oliveira. A programação paralela do festival literário se encerra neste domingo (26).

Presença ancestral e dimensão cultural da liberdade

Durante o encontro, Angela Davis relacionou a história de Paraty ao período da escravização e afirmou que a cidade carrega marcas profundas desse passado. Para ela, a luta por liberdade do movimento negro não pode ser compreendida apenas como um processo político: há uma dimensão cultural indispensável, celebrada simbolicamente naquele momento.

A ativista destacou o papel de expressões artísticas — como música, artes visuais e literatura — para acessar camadas de experiência e reflexão que, segundo ela, não se alcança por outros meios. Nesse sentido, a Flip, ao reunir leitores, escritores e debates públicos, seria também um espaço de mobilização e transformação social.

Críticas à gentrificação e ao racismo ambiental em Paraty

Angela Davis também usou o palco do evento para denunciar processos que, na visão dela, vêm impactando comunidades locais. Entre os temas citados estavam a gentrificação — fenômeno em que a valorização de determinadas áreas eleva preços e expulsa moradores mais pobres — e o racismo ambiental, quando os efeitos de degradação e desigualdade ambiental recaem de forma desproporcional sobre populações vulnerabilizadas.

Ao mencionar conversas com moradores, especialmente jovens, a ativista relatou preocupações com o futuro do planeta e com a permanência de famílias em territórios ligados à história e à ancestralidade. Ela criticou iniciativas associadas ao aumento de lucro que, segundo descreveu, pressionam comunidades a deixarem suas terras.

Para Davis, festivais literários e eventos culturais não deveriam se limitar à celebração de livros, mas também observar o entorno, escutar a população e reconhecer o potencial da literatura como instrumento para influenciar atitudes e provocar mudanças.

Ausência de Wole Soyinka e elogio a Conceição Evaristo

Na mesa, Angela Davis comentou que a conversa estava prevista para incluir o escritor nigeriano Wole Soyinka, primeiro africano a receber o Nobel de Literatura, mas que ele não pôde comparecer por motivos de saúde. Ela afirmou estar contente com a participação e registrou o lamento pela ausência do autor.

Outro momento relevante foi a menção à presença da escritora mineira Conceição Evaristo na plateia. Davis agradeceu publicamente e associou a importância da autora brasileira à de referências como a cantora Nina Simone e a escritora Toni Morrison, ambas norte-americanas.

Ao tratar do conceito de “escrevivência”, formulado por Conceição Evaristo, a ativista avaliou que o reconhecimento de que pessoas negras precisam narrar e compartilhar as próprias histórias levou tempo para ganhar espaço. Davis também citou Toni Morrison para reforçar a crítica à ideia de universalidade da experiência branca, lembrando a relevância da autora premiada com o Nobel de Literatura em 1993.

Beatriz Nascimento, internacionalismo e a ideia de ser “atlântica”

Com mediação de Flávia Oliveira, que apresentou nomes ligados a debates sobre movimento negro, meio ambiente e direitos humanos, Angela Davis destacou contribuições da intelectual brasileira Beatriz Nascimento. Ela retomou a frase “eu sou atlântica” como síntese de pertencimento a uma história ampla, atravessada pela diáspora e por conexões entre continentes.

Davis disse que o internacionalismo foi uma das primeiras grandes descobertas em sua trajetória. Ao recordar uma viagem à França, contou que esperava encontrar na prática os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, mas se deparou com a realidade da repressão enfrentada por argelinos durante o processo de colonização. A experiência, segundo relatou, reforçou a noção de solidariedade para além de fronteiras — ideia que ela associou às formulações de Beatriz Nascimento.

Lélia Gonzalez, amefricanidade e crítica ao capitalismo

Angela Davis também citou a pensadora e ativista brasileira Lélia Gonzalez, referência nos debates sobre raça, gênero e classe. Ela lembrou o conceito de amefricanidade, que reconhece as conexões entre lutas negras nas Américas e a necessidade de considerar também a presença e a resistência dos povos indígenas.

Na sequência, Davis ampliou a crítica ao sistema econômico, apontando o papel de grandes fortunas — incluindo bilionários e trilionários — na exploração de pessoas e na degradação ambiental. Para ela, essas elites não representam um horizonte de futuro para o planeta, e o modelo capitalista intensifica desigualdades ao priorizar o lucro, mesmo quando o custo recai sobre a natureza e sobre seres humanos.

Autoritarismo, eleições e pautas sociais

A ativista abordou ainda o cenário político contemporâneo e alertou para os impactos do avanço de governos autoritários. Ela disse acreditar que a população é mais forte do que projetos de inspiração fascista que buscam comandá-la e mencionou que o fenômeno aparece em diferentes regiões, como Europa, Estados Unidos e América Latina. No caso brasileiro, citou a importância de impedir que candidatos alinhados ao fascismo cheguem ao poder.

Entre temas práticos, Davis falou sobre a redução da jornada de trabalho como medida capaz de ampliar tempo de descanso, lazer e acesso à cultura para trabalhadores. Ela observou que experiências de diminuição do tempo de trabalho já ocorrem em alguns países europeus. Também comentou mudanças no acesso de pessoas negras ao ensino superior, dizendo ter percebido transformações ao longo de visitas ao Brasil, incluindo experiências na Bahia. Para a ativista, as conquistas devem ser celebradas, mas sem acomodação: a luta precisa continuar.

Memória da prisão e força da mobilização coletiva

Ao relembrar sua prisão — após perseguição por sua atuação política e sob acusações falsas de conspiração, sequestro e homicídio — Angela Davis ressaltou a força de campanhas internacionais que pediram sua libertação e atuaram para barrar a pena de morte. Ela disse que, enquanto estava encarcerada, outras pessoas se mobilizavam nas ruas e em diferentes países, mostrando como a pressão coletiva pode frear decisões de autoridades e governos.

Davis afirmou que a experiência do cárcere teve impacto decisivo em sua formação e em seu trabalho acadêmico e militante, inclusive pelo convívio com outras mulheres presas. Ela também mencionou sua atuação histórica em defesa da Palestina, pauta que acompanha desde a década de 1960.