Literatura e diversidade

Cultura

Flip 2026 destaca Nathacha Appanah e debate violência doméstica na literatura

A Festa Literária de Paraty (Flip), na 24ª edição, teve uma escolha relevante para ampliar a diversidade geográfica e cultural dos convidados, reunindo escritores de diferentes países e trajetórias. Um dos destaques é a escritora franco-mauriciana Na

A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reforçou, em sua curadoria, a proposta de ampliar a diversidade geográfica e cultural do evento. A programação principal reuniu autores de diferentes países e trajetórias, com temas que atravessam migração, linguagem e violência de gênero.

Entre os destaques esteve a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah, convidada de uma mesa realizada nesta sexta-feira (24). Reconhecida por romances que investigam violências íntimas e sociais, ela apresentou ao público reflexões sobre seu livro Noite no coração (Bazar do Tempo), obra publicada em mais de 15 países.

Nathacha Appanah leva à Flip um romance sobre silêncio e agressão doméstica

No encontro, Appanah abordou o enredo de Noite no coração, que acompanha as trajetórias de três mulheres marcadas por violência dentro de casa. Segundo a autora, o livro nasceu do desejo de enfrentar o silêncio em torno desse tipo de agressão e de buscar, na literatura, um espaço de elaboração.

As personagens foram inspiradas em acontecimentos reais. Uma das histórias se relaciona diretamente à própria escritora. As outras duas mulheres, conforme relatado na conversa, foram assassinadas por seus companheiros. Appanah também ressaltou que a obra combina relato, construção romanesca e reflexão, com atenção especial à linguagem e ao lugar de quem escreve.

O tempo como eixo narrativo do livro “Noite no coração”

Ao comentar o processo de criação, a autora contou que iniciou o projeto há mais de cinco anos e, desde o começo, entendeu que o tempo seria o elemento central da narrativa. A intenção literária, explicou, foi “encurtar” distâncias temporais e reunir no mesmo espaço ficcional vidas que nunca se cruzaram.

Essa estratégia permite que as três mulheres existam lado a lado no livro, mesmo sem terem se conhecido. A aproximação, construída por meio da escrita, cria uma espécie de coexistência que dá visibilidade às experiências e torna o impacto das violências mais perceptível ao leitor.

Migração, deslocamento e as muitas línguas na formação da autora

Nascida nas Ilhas Maurício, em uma família de origem indiana, Nathacha Appanah vive atualmente na França e destacou como o deslocamento marca sua biografia e sua literatura. Para ela, a experiência de transitar entre culturas também passa pelo contato com diferentes idiomas e pelas funções que cada língua desempenha no cotidiano.

Durante a mesa, a escritora descreveu um ambiente familiar em que conviviam registros linguísticos diversos: havia a língua da intimidade, a da escola, a usada em situações específicas da vizinhança e até a associada ao afeto e à sedução. Essa multiplicidade, afirmou, reforçou a percepção de que nenhuma língua se sobrepõe às outras.

Appanah ainda lembrou que, apesar do isolamento geográfico do arquipélago, a casa onde cresceu lhe dava a sensação de ter “o mundo ao alcance”, justamente pela mistura de vozes, referências e histórias.

Duas gerações sob o mesmo teto e memórias do período colonial

Outro ponto abordado foi a convivência com pais e avós, que representavam experiências históricas muito distintas. Appanah recordou que os avós nasceram e viveram em uma plantação de cana-de-açúcar em um contexto colonial, carregando marcas desse passado.

Ela também mencionou que a língua indiana falada pelos avós era sua língua materna. Já os pais, descritos como pessoas escolarizadas e inseridas em uma vida voltada à modernidade e ao exterior, indicavam uma outra perspectiva de mundo. A autora explicou que cresceu entre essas duas margens: de um lado, memórias transmitidas em narrativas familiares; de outro, uma geração voltada para fora, com novos horizontes.

Bethânia Pires Amaro discute violência de gênero e realismo mágico

A mesa contou ainda com a participação da brasileira Bethânia Pires Amaro, autora de Ressalga (Record). Na obra, ela também trata de violência de gênero, acompanhando a história de três gerações de mulheres na Bahia.

Ao falar sobre seu modo de construir personagens, Bethânia afirmou que recorre ao realismo mágico como ferramenta narrativa. Segundo a escritora, o recurso permite uma aproximação menos direta, que amplia as possibilidades de leitura e evita reduzir as personagens ao trauma. O efeito, explicou, é oferecer uma visão em que as mulheres aparecem também como sujeitos em transformação, com potência e movimento, e não apenas como vítimas.

Nota: a equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.