Literatura brasileira
Por REDAÇÃO
22 de julho de 2026 às 07:45 ▪ Atualizado há 2 horas
Orides Fontela (1940-1998) fez da escrita um modo de vida. Em vez de produzir em volume, ela preferiu a contenção: poucos versos, muitas camadas. Críticos e pesquisadores a colocam entre os nomes mais relevantes da poesia brasileira do século 20, sobretudo pela linguagem precisa e pelo peso filosófico de seus poemas.
Ainda assim, por décadas, a autora permaneceu pouco lida fora de ambientes especializados. Enquanto sua obra circulava com força em universidades e entre escritores, o grande público mal conhecia sua trajetória. Agora, quase 30 anos após sua morte, a poeta ganha uma vitrine de alcance nacional: a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) a escolheu como homenageada.
A 24ª edição da Flip tem início nesta quarta-feira (22) e traz Orides Fontela como autora homenageada. A decisão, assinada pela curadora Rita Palmeira, é vista como um passo importante para reposicionar a escritora no cenário cultural brasileiro e, ao mesmo tempo, facilitar o acesso do público à sua produção.
Para além das mesas e debates, a homenagem tende a estimular novas leituras, reedições e discussões sobre uma obra que sempre foi reconhecida por especialistas, mas que não chegou com a mesma intensidade às prateleiras e aos hábitos de leitura do país.
Nascida em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Orides construiu uma vida marcada por trabalho e estudo. Formou-se em filosofia e atuou profissionalmente como professora primária e bibliotecária, experiências que ajudaram a moldar sua relação cotidiana com a linguagem e os livros.
Mesmo com uma obra enxuta, recebeu prêmios relevantes. Em 1983, venceu o Prêmio Jabuti na categoria Poesia com Alba. Anos depois, em 1996, foi reconhecida pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), reforçando a posição de destaque que sua escrita já ocupava entre críticos.
O pesquisador e jornalista Gustavo de Castro, autor da biografia O Enigma Orides (editora Hedra), afirma que durante muito tempo predominou uma leitura pública que desviava o foco do texto para a construção de uma personagem. Na avaliação dele, a cobertura sobre a autora frequentemente realçou conflitos pessoais e uma imagem quase folclórica, em vez de discutir o projeto literário que ela desenvolveu.
Em entrevista à Agência Brasil, Castro aponta que Orides era conhecida sobretudo em círculos universitários, sem o mesmo alcance nacional dedicado a outros autores. Para ele, a escolha da Flip contribui para corrigir essa distorção ao valorizar uma poeta mulher, pobre e historicamente marginalizada, recolocando o debate no lugar central: a qualidade da obra.
Segundo o biógrafo, a escritora precisa ser lida como artista que sustentou a criação mesmo em condições materiais extremas. Ele destaca uma autora que pensava o livro como objeto estético, tratava o poema como elaboração sensível e via a palavra como experiência emocional.
Outro ponto citado por Gustavo de Castro para explicar a baixa visibilidade de Orides é o machismo estrutural. Na visão dele, preconceitos presentes na sociedade brasileira se refletem no ambiente literário, influenciando quais vozes ganham circulação e quais ficam restritas a nichos.
Castro observa que mulheres que fogem de expectativas sociais sobre comportamento, relações afetivas e trabalho costumam ser enquadradas por estereótipos. No caso de Orides, isso teria reforçado a tendência de reduzir sua importância a uma narrativa de vida, em detrimento de seus poemas.
Para o pesquisador, o centro da leitura deve ser a escrita: uma poesia capaz de revelar sentidos distintos conforme o leitor se aproxima do texto, como um cristal que muda conforme o ângulo de observação.
O processo criativo de Orides também ajuda a entender a densidade de sua obra. De acordo com o biógrafo, a poeta anotava versos a partir de leituras, muitas vezes no verso de livros, e guardava rascunhos em folhas soltas. Depois, reunia o material e voltava a ele inúmeras vezes, reescrevendo até chegar ao resultado final.
Não se tratava de uma rotina rígida, marcada por horários fixos e produção linear. A dinâmica era a combinação entre lampejos de inspiração e um trabalho paciente de revisão, com tempo para maturar e lapidar cada verso.
Publicado originalmente em 2015, O Enigma Orides foi reeditado neste ano em que a poeta é homenageada na Flip e passou a trazer trechos inéditos. A nova edição reforça o movimento de redescoberta da autora e amplia o material disponível para leitores e pesquisadores.
Castro, que pesquisa biografias de poetas, chama atenção para a intensidade com que Orides pensava poesia. Em seu relato, a escritora viveu uma dedicação contínua à palavra, mantendo a produção literária mesmo diante de precariedades.
Ao mesmo tempo, ele pondera que essa entrega total não deve ser romantizada. Segundo o biógrafo, a radicalidade de apostar tudo na poesia teve custos pessoais e contribuiu para um processo de esgotamento. Entre as lembranças, ele cita uma frase atribuída à autora, em que Orides se comparava a Clarice Lispector, dizendo ser “o próprio coração selvagem”.
Com a homenagem na Flip, a expectativa é que a obra de Orides Fontela deixe de ser um patrimônio quase exclusivo da academia e se torne, finalmente, leitura mais presente na vida cultural brasileira.
Fonte: Agência Brasil
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