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Encontro de Jongos no Vale do Café celebra Mestra Fatinha e o jongo

Os festejos dos 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha, estão entrelaçados à comemoração do Dia Estadual do Jongo, com a realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, no Parque das Ruínas de Pinheiral, no sul fluminen

Por REDAÇÃO

25 de julho de 2026 às 15:48 ▪ Atualizado há 3 horas


Encontro de Jongos no Vale do Café celebra Mestra Fatinha e o jongo

Os 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, conhecida como Mestra Fatinha, serão comemorados junto a uma data simbólica para a cultura afro-brasileira: o Dia Estadual do Jongo. A homenagem acontece em Pinheiral, no sul do Rio de Janeiro, durante o 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, marcado para este sábado (25), no Parque das Ruínas.

A programação reúne 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais ligadas ao jongo, vindas dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para a mestra, a presença de tantos grupos reforça a continuidade de saberes herdados dos ancestrais e dá novo sentido a um território atravessado pela memória da escravidão e da resistência negra.

Parque das Ruínas: palco simbólico para a tradição

O encontro será realizado em duas áreas do Parque das Ruínas cedidas pela Prefeitura de Pinheiral. No local, o Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (CREASF) mantém ações voltadas à preservação e difusão das raízes culturais dos jongueiros da região.

O cenário carrega um peso histórico. Ali funcionou São José dos Pinheiros, uma das maiores fazendas de café do período colonial, onde viveram mais de 3 mil negros escravizados. Para Mestra Fatinha, promover o jongo nesse espaço é também uma forma de ressignificar o passado.

Ela explica que a tradição se mantém viva por meio de diferentes núcleos familiares, com grupos de jongueiros que se organizam e transmitem cantos, ritmos e rituais de geração em geração.

50 anos de militância e preservação cultural

Mestra Fatinha completa 70 anos com uma trajetória marcada por décadas de atuação. Segundo ela, foram cerca de 50 anos dedicados à defesa da cultura negra no Vale do Café, região que concentra cidades historicamente ligadas à economia do café e à presença de populações escravizadas.

Na avaliação da mestra, o jongo sempre foi mais do que uma manifestação cultural: funcionou como instrumento de articulação e sobrevivência comunitária. Ela aponta que, no período da escravidão, a prática era utilizada para encontros, cortejos, paqueras, cantos de saudade do continente africano e também para a religiosidade, incluindo referências aos orixás.

Fatinha relembra que sua militância ganhou força entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990, quando a articulação do movimento negro entre Rio e São Paulo se intensificou. Um marco pessoal foi a participação no Clube Palmares, em Volta Redonda, reconhecido como o único clube social de negros do estado do Rio de Janeiro.

Ela também associa sua formação à vivência familiar. Segundo a mestra, seus pais e avós cultivaram uma consciência racial forte e mantiveram práticas culturais dentro de casa: havia corte de Moçambique, jongo, samba, música e canto. Sua mãe, hoje com 93 anos, ainda canta, afirma.

Reconhecimento acadêmico e protagonismo negro

O trabalho de Mestra Fatinha passou a ser reconhecido também por instituições de ensino e pesquisa. No ano passado, a Universidade Federal Fluminense (UFF) concedeu a ela o título de notório saber. A mestra relata que participa há mais de uma década de atividades ligadas a Encontros de Saberes, iniciativa que aproxima mestres de tradições populares do ambiente universitário.

Para Fatinha, esse reconhecimento tem impacto direto na formação de crianças e adolescentes, ao fortalecer referências negras em espaços de educação e cultura. Ela defende que a população negra conte sua própria história, especialmente em um território onde, segundo observa, a memória pública costuma destacar a narrativa dos barões do café.

Na leitura da mestra, a valorização do jongo e das comunidades tradicionais ajuda a mostrar outra perspectiva do Vale do Café: a de que a construção do chamado “império” econômico regional foi sustentada pelo trabalho e pela cultura do povo preto.

Certificação quilombola e próximos passos no Incra

Outro avanço citado por Mestra Fatinha envolve o reconhecimento institucional da comunidade. Ela informa que, no ano passado, a Fundação Cultural Palmares certificou a região como comunidade quilombola, em razão das ações culturais relacionadas ao Jongo do Pinheiral.

O objetivo agora, afirma, é dar continuidade ao processo junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), etapa voltada à delimitação territorial. A expectativa é que a formalização amplie a visibilidade e ofereça condições para fortalecer as atividades culturais e educativas já realizadas.

Jongo: patrimônio imaterial e raízes bantu

O jongo foi reconhecido em 2005 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. A manifestação também é conhecida, em diferentes lugares, como congo ou caxambu.

De acordo com Mestra Fatinha, trata-se de uma expressão característica do Sudeste. Ela é preservada por descendentes de pessoas escravizadas de origem bantu, especialmente de regiões como Congo, Angola e Moçambique, trazidas ao Brasil para o trabalho em lavouras de café e cana-de-açúcar. A prática se espalhou por estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo.

No período pós-abolição, o jongo também ganhou novos caminhos. Parte dessas tradições desceu a serra e chegou aos morros cariocas com famílias que, mais tarde, contribuiriam para a formação de escolas de samba.

Programação: encontro segue no Dia Estadual do Jongo

O 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café é realizado em conjunto por Jongo de Pinheiral, Rede de Jongo do Vale do Café, Instituto Floresta, Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e CREASF. A iniciativa conta com parceria da Prefeitura de Pinheiral, dos ministérios da Igualdade Racial e da Justiça, do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e do Museu Vassouras.

A agenda continua no domingo (26), data em que se celebram o Dia de Sant’Ana e o Dia Estadual do Jongo. Está prevista uma procissão dedicada à santa, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo, que no sincretismo das religiões de matriz afro-brasileira é associada a Nanã.

Após a caminhada, haverá ladainhas em homenagem a Sant’Ana. A saída está marcada para as 18h, na Casa do Jongo de Pinheiral. A organização destaca que a procissão é uma tradição local com mais de 100 anos.

Fonte: Agência Brasil



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