Após um longo período tentando engravidar, a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento comemorou o resultado positivo. A alegria, porém, durou pouco. Em poucos dias, ela recebeu a confirmação de que a gestação não evoluiria como esperado. Menos de um mês depois, veio um novo choque: o diagnóstico de câncer relacionado à gravidez.
Daiana conta que a sequência de acontecimentos foi rápida e devastadora. Primeiro, a expectativa de formar uma família. Em seguida, a frustração com a interrupção necessária da gestação. Por fim, a descoberta de um tumor que pode surgir a partir dessa condição. O caso dela ilustra uma doença ainda pouco conhecida fora dos consultórios: a mola gestacional.
O que é mola gestacional e por que ela acontece
A mola gestacional é o nome popular da doença trofoblástica gestacional. Ela aparece quando ocorre um erro na fertilização, que altera a formação da placenta. O resultado é uma placenta anormal, com crescimento desorganizado, que não consegue sustentar uma gestação viável.
Existem duas principais formas do problema. Na chamada mola incompleta, ocorre fecundação anormal que gera placenta defeituosa e um embrião com alterações genéticas incompatíveis com a vida. Já na mola completa, o óvulo não contém DNA e, após a fecundação, forma-se apenas tecido placentário alterado, sem embrião.
Em ambos os casos, a gestação precisa ser interrompida e o tecido deve ser removido, geralmente por aspiração uterina. Sem esse cuidado, podem surgir complicações como sangramento, alterações na pressão arterial e impactos na tireoide.
Quando a mola evolui para câncer de placenta
O risco mais grave associado à doença é a evolução para um câncer de placenta, que ocorre quando células remanescentes da mola permanecem no útero e continuam se multiplicando. Em situações mais agressivas, pode haver metástase, com destaque para os pulmões como um dos locais mais afetados.
O professor de obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Antônio Braga, responsável pelo Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, explica que a chance de evolução varia conforme o tipo de mola. Segundo ele, o câncer é menos frequente após mola parcial, mas pode ocorrer em uma parcela significativa das mulheres com mola completa.
Braga também chama atenção para a incidência no país. De acordo com o especialista, no Brasil a doença aparece em uma proporção maior do que em países como Estados Unidos e Inglaterra, e as hipóteses investigadas incluem fatores genéticos, imunológicos e alimentares, embora as causas dessa diferença ainda não estejam completamente definidas.
Diagnóstico: ultrassom e acompanhamento do hormônio HCG
Na prática, a maioria das pacientes descobre a mola ao realizar um ultrassom de rotina após o exame de sangue ou de urina indicar gravidez — exatamente como aconteceu com Daiana. Apesar de não ser considerada rara, muitas mulheres só ouvem falar do problema depois do diagnóstico.
Após a retirada do tecido, um exame histopatológico identifica se a mola é parcial ou completa. A partir daí, inicia-se uma etapa essencial: o monitoramento periódico do HCG, o hormônio da gestação.
O ambulatório coordenado por Braga destaca um ponto central do manejo: esse é um tipo de câncer em que a principal confirmação não depende de biópsia, e sim do comportamento do HCG, que funciona como marcador tumoral. A expectativa é que, com a interrupção da gestação, o hormônio caia e se mantenha em níveis considerados normais. Se isso não ocorrer, a equipe médica investiga a possibilidade de doença persistente ou câncer, com indicação de quimioterapia quando necessário.
Centro de referência: por que faz diferença no desfecho
A Maternidade Escola da UFRJ, integrante da rede HU Brasil, é apontada como um dos principais centros do mundo em atendimento e pesquisa sobre a doença trofoblástica gestacional. O serviço atende dezenas de pacientes semanalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive mulheres de outros municípios e estados.
Mesmo pessoas com plano de saúde procuram o atendimento no centro especializado. A justificativa está no impacto direto sobre a segurança do tratamento. O coordenador do ambulatório afirma que estudos do serviço indicam aumento expressivo do risco de morte quando o acompanhamento é feito fora de unidades de referência, reforçando a necessidade de protocolos específicos e equipe experiente.
Tratamento, cura e a possibilidade de engravidar novamente
Daiana passou por quimioterapia e, segundo seu acompanhamento, teve normalização do HCG — um sinal de remissão da doença. Ainda assim, ela precisa aguardar um período antes de tentar nova gravidez. O motivo é clínico: um teste positivo nesse intervalo pode dificultar a detecção precoce de uma eventual recaída, já que o HCG também sobe em gestações normais.
O ambulatório informa que, em grande parte dos casos tratados adequadamente, a cura é alcançada e muitas pacientes conseguem engravidar novamente. O serviço, inclusive, acompanha o pré-natal de mulheres que tiveram a doença e desejam retomar o plano de ter filhos.
Quando a histerectomia pode ser indicada
Em algumas situações, principalmente entre mulheres mais velhas, que já tiveram filhos ou não pretendem engravidar, pode ser recomendada a histerectomia, cirurgia para retirada do útero. Foi o caminho indicado para Mônica Rosa do Amaral Pelizari, que descobriu a mola após um abortamento espontâneo aos 45 anos e, pouco depois, também enfrentou o câncer de placenta.
Mônica relata que o medo do termo “câncer” foi imediato, somado ao desconhecimento sobre a doença. Apesar da gravidade, ela avalia que conseguiu atravessar o tratamento com o apoio da família e da equipe de saúde. Após cirurgia e quimioterapia, ela se curou e mantém consultas anuais de controle.
Acolhimento e saúde mental no pós-diagnóstico
Além do tratamento médico, o hospital oferece suporte social e psicológico e atividades de acolhimento, como musicoterapia. A médica Gabriela Paiva, do ambulatório, ressalta que a perda gestacional costuma chegar acompanhada de expectativas de toda a família, o que torna o diagnóstico especialmente delicado. Segundo ela, já no primeiro atendimento a equipe reforça que a condição ocorre ao acaso e não é culpa da paciente.
O impacto também se estende a parceiros e familiares. Lucas Felipe, marido de Daiana, afirma que tentou se manter firme para apoiá-la, mas reconhece que o sofrimento atinge todos e que cuidar da saúde emocional é parte do processo. Além disso, o tratamento pode exigir reorganização da rotina, com efeitos logísticos e financeiros, especialmente para quem precisa se deslocar até serviços especializados.