Eleições e diplomacia

Política

Lula diz que resultado deve ser aceito e critica Trump em entrevista

As mais recentes pesquisas de opinião de voto mostram que Flávio Bolsonaro empata com o petista em um eventual segundo turno presidencial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou à revista alemã Der Spiegel que, em uma disputa eleitoral, “o resultado precisa ser respeitado”, ao ser questionado sobre a hipótese de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vencer as eleições de outubro. A declaração foi dada em Brasília, em meio a uma semana de entrevistas do petista à imprensa europeia.

Lula está em viagem internacional com paradas na Espanha, Alemanha e Portugal. Ele desembarca na Alemanha no domingo (19) para participar da abertura da Feira Industrial de Hannover, que terá o Brasil como país convidado. Na terça-feira (21), a agenda prevê passagem por Portugal.

Lula defende respeito às urnas e cita a própria trajetória

Ao comentar o cenário eleitoral, o presidente disse que decisões tomadas pelo eleitorado devem ser acatadas independentemente do campo político do vencedor. Ele usou a própria história como exemplo, lembrando que não esperava chegar à Presidência vindo do movimento sindical e, ainda assim, foi eleito três vezes.

Pesquisas recentes de intenção de voto, incluindo levantamento do Datafolha citado no material, indicam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em uma simulação de segundo turno.

Na entrevista, Lula também foi indagado sobre o risco de o país voltar a um ambiente autoritário. Ele respondeu que o Brasil seguirá com instituições democráticas e acrescentou que pretende vencer o pleito.

O presidente reforçou críticas a grupos que, segundo ele, não demonstram compromisso com a democracia. Na avaliação apresentada à revista, correntes de direita que se espalham pelo mundo estariam alimentando a polarização com desinformação e discurso de ódio.

Candidatura em outubro e a indefinição sobre o quarto mandato

Segundo o relato publicado, Lula evitou uma resposta direta sobre a própria participação na disputa presidencial. Ele afirmou que a decisão dependerá das discussões internas do PT e da convenção partidária, quando seriam debatidos “os principais nomes”.

O presidente ainda disse estar se preparando para o processo, destacando disposição física e mental para enfrentar o período eleitoral e compromissos de governo.

Alternância de poder e visão sobre Cuba e Venezuela

Lula comentou o desempenho recente de forças progressistas na América Latina e classificou a alternância de poder como um elemento central do sistema democrático. Para ele, a mudança de governos por meio do voto é parte do funcionamento esperado das instituições.

Ao abordar Cuba e Venezuela, o petista voltou a sustentar que a condução política desses países deveria ser definida internamente, por seus eleitores. Ele também criticou a atuação da União Europeia no caso venezuelano, chamando de “lamentável” o apoio ao opositor Juan Guaidó como chefe de Estado, por entender que houve tentativa de ruptura institucional.

Críticas a Trump, guerra no Irã e recado a Putin

Assim como havia feito em entrevista recente ao jornal espanhol El País, Lula voltou a direcionar críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. De acordo com a reportagem, o brasileiro afirmou que Trump “não foi eleito imperador do mundo”, ao comentar a guerra no Irã e os impactos do conflito nos mercados globais.

O presidente também citou o líder russo Vladimir Putin. Segundo Lula, a invasão da Ucrânia não se justificaria, assim como não haveria legitimidade para interferência externa em países da América Latina. Ele comparou os temas ao afirmar que, da mesma forma que Putin não teria o direito de atacar a Ucrânia, Trump não teria o direito de intervir na Venezuela ou ameaçar Cuba.

A fala ganha relevância por ocorrer após críticas recebidas por Lula na Europa em razão de sua ida a Moscou no ano anterior, quando participou de eventos relativos aos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, em um contexto de guerra na Ucrânia.

Agenda na Alemanha e a polêmica envolvendo Friedrich Merz e Belém

A entrevista também mencionou um episódio recente envolvendo o primeiro-ministro alemão Friedrich Merz, que viralizou após um comentário depreciativo sobre Belém, feito depois de participar da COP30, em novembro.

Questionado sobre o assunto, Lula relatou ter recomendado a Merz que comesse em um bar da capital paraense. Na mesma explicação, o presidente contou que, em uma visita anterior a Berlim, teria comido um salsichão em uma barraca de rua quando esteve com Angela Merkel.

O relato traz ainda um componente político doméstico alemão: Merkel e Merz, embora sejam do mesmo partido (CDU), são adversários internos históricos, o que deu um tom de provocação à comparação feita por Lula.

Com a agenda europeia em andamento e o debate eleitoral se intensificando no Brasil, a entrevista à Der Spiegel combina temas internos — como as eleições de outubro e a defesa do respeito às urnas — com recados de política externa, em especial sobre guerras, disputas de influência e o papel de grandes potências no cenário global.