O senador Flávio Bolsonaro (PL), que se apresenta como pré-candidato à Presidência, usou sua participação na Cpac — considerada a principal conferência conservadora do mundo — para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e reforçar uma narrativa de alinhamento com o público americano.
Em um discurso feito em inglês e com duração aproximada de 15 minutos, Flávio afirmou que o governo brasileiro atua contra interesses dos Estados Unidos. Ele também procurou relacionar Lula ao presidente venezuelano Nicolás Maduro, citando o histórico de aproximação entre os dois líderes.
Críticas a Lula e associação com Maduro
No palco, Flávio afirmou que Lula e o PT mantêm postura hostil aos EUA e disse que o presidente brasileiro defende publicamente iniciativas para reduzir a força do dólar como moeda de referência global. Segundo o senador, o Planalto também teria ampliado a parceria com a China e assumido posições divergentes das de Washington em temas de política externa.
Ao longo da apresentação, telões exibiram uma imagem de Lula ao lado de Maduro, registrada em maio de 2023, em Brasília, durante uma reunião com líderes sul-americanos. O senador usou a foto como elemento de crítica política, apesar de Lula ter questionado, em 2024, a falta de transparência no processo eleitoral venezuelano e não reconhecer a vitória do líder chavista naquele pleito.
Flávio ainda mencionou Maduro em seu discurso ao citar o dirigente venezuelano como ditador. O senador também afirmou que o petista se aproxima de adversários estratégicos dos EUA e, por isso, atuaria como “antagonista” da política americana na região.
Entrada no palco, menções a Jair Bolsonaro e paralelo com Trump
Flávio foi chamado ao palco por Eduardo Bolsonaro, ex-deputado e seu irmão. Eduardo disse estar filmando a plateia para mostrar a Jair Bolsonaro, ex-presidente, que estaria em prisão domiciliar, segundo relato feito durante o evento.
Já no discurso, Flávio exibiu imagens de Jair Bolsonaro ao lado de Donald Trump e traçou comparações entre as trajetórias políticas dos dois. Ele citou ainda que ambos teriam sido alvo de tentativas de assassinato e afirmou que o ex-presidente brasileiro estaria “na prisão”, fazendo um paralelo com a situação de Trump, que, segundo ele, só não teria ocorrido por mobilização de apoiadores nos EUA.
Acusações sobre eleições e Usaid e críticas à regulação das redes
O senador retomou temas ligados à prisão e condenação de Lula, dizendo que o petista foi condenado por corrupção e voltou ao cargo de presidente. No mesmo contexto, Flávio fez alegações de que recursos da Usaid (agência americana de ajuda internacional, posteriormente desmantelada durante o governo Trump, conforme o relato citado) teriam sido utilizados para favorecer o retorno de Lula ao poder.
Flávio também apontou o que chamou de “interferência” do governo Joe Biden nas eleições de 2022 no Brasil. De acordo com ele, o objetivo teria sido impulsionar a vitória de Lula. Durante o período eleitoral, autoridades americanas manifestaram preocupação com declarações de Jair Bolsonaro sobre eventual não aceitação do resultado, baseadas em alegações falsas de fraude, segundo registros daquele momento.
O senador afirmou que acredita em vitória eleitoral se houver liberdade de expressão nas redes sociais e contagem correta dos votos. A fala veio acompanhada de críticas a propostas de regulação das plataformas digitais, tema que mobiliza setores conservadores. Eduardo Bolsonaro também abordou o assunto e disse temer impactos do debate sobre o PL das Big Techs no desempenho eleitoral da direita, ao argumentar que grande parte desse eleitorado se informa pelas redes.
Recados ao eleitor americano e a disputa por narrativa com a China
Buscando sintonia com o público presente, Flávio adotou expressões usadas por Trump para atacar Biden, como o apelido “Joe Autopen Biden”, referência à acusação do republicano de que seu antecessor utilizaria uma caneta automática para assinar documentos oficiais.
O senador também tentou conectar sua pauta a temas estratégicos para Washington, como minerais críticos e a necessidade de reduzir dependência americana da China. Para ele, os EUA estariam diante de uma escolha: ter o Brasil como aliado ou lidar com um país alinhado a rivais, o que dificultaria políticas americanas para a América Latina.
Flávio citou ainda pesquisas e sinais de mercado. Ele mencionou levantamento do Datafolha que indicaria empate técnico com Lula em um eventual segundo turno e apontou que casas de apostas passaram a projetá-lo em vantagem. De acordo com o Polymarket, no domingo (28), Flávio aparecia com 43% de chances de vitória, contra 42% atribuídos a Lula.
Trump, Lula e atritos recentes entre Brasil e Estados Unidos
Apesar de críticas frequentes de Lula à gestão Trump em temas internacionais, o republicano não tem adotado tom de confronto público com o presidente brasileiro. Em declarações recentes sobre o Brasil, Trump disse que “gostava muito” de Lula e que mantinha boa relação com ele.
Havia expectativa de um encontro entre os dois na Casa Branca entre março e abril, mas, até o momento, não há data confirmada. Flávio, por sua vez, afirmou compreender que Trump mantém relações institucionais com líderes estrangeiros, ainda que possa ser influenciado por conselheiros.
No pano de fundo, a relação bilateral pode enfrentar novas tensões com a possibilidade de o Departamento de Estado classificar facções criminosas brasileiras, como CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital), como organizações terroristas. O governo brasileiro busca evitar essa designação, temendo que ela abra margem para uma ação militar americana no território nacional.
Flávio disse que a atuação do Planalto junto a interlocutores nos EUA configuraria “lobby” para proteger organizações criminosas. Ele afirmou que Lula teria pressionado conselheiros americanos para impedir a classificação das facções.
Visto revogado e visita barrada a Jair Bolsonaro
O senador também mencionou a revogação do visto de Darren Beattie, conselheiro para relações com o Brasil nos Estados Unidos. Beattie pretendia viajar ao país e, entre compromissos, visitar Jair Bolsonaro na prisão. Inicialmente, a visita teria sido autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, mas depois foi proibida.
Moraes justificou que a visita poderia representar “indevida ingerência” em assuntos internos e apontou que o pedido não estaria alinhado aos objetivos formalmente comunicados pelo Departamento de Estado, relacionados a compreender o sistema eleitoral brasileiro. Para Flávio, o episódio seria um sinal de deterioração do relacionamento e um gesto sem precedentes, ao afirmar que o Brasil estaria expulsando diplomatas americanos.
*Conteúdo originalmente atribuído a Isabella Menon, da Folhapress, reescrito em formato original para fins jornalísticos e de SEO.