Economia do açaí

Pará

Pará responde por 93,8% do valor do açaí no Brasil, aponta Fapespa

Estudo da Fapespa mostra que o Pará movimentou R$8,8 bilhões com o fruto em 2024; a produção do estado cresceu 14 vezes em 38 anos

A cadeia do açaí no Pará reforçou, em 2024, um protagonismo difícil de ser alcançado por qualquer outra cultura na Amazônia. Um estudo divulgado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) indica que o estado concentrou 93,8% do valor total gerado pela produção brasileira do fruto no último ano, somando R$ 8,8 bilhões.

A análise está reunida na nota técnica “O Contexto econômico e ambiental do açaí”, publicada nesta semana. O documento reúne uma série histórica extensa, com informações de 38 anos, e detalha a evolução produtiva, a distribuição territorial, os efeitos econômicos e o papel ambiental do cultivo.

Produção de açaí no Pará cresce 14 vezes em quase quatro décadas

O levantamento aponta que a produção paraense passou por uma expansão expressiva desde o fim dos anos 1980. Entre 1987 e 2024, o volume saltou de 145,8 mil toneladas para 1,9 milhão de toneladas. Na prática, isso representa um aumento de 14 vezes no período.

Esse avanço sustenta a posição do estado como principal polo do açaí no país e ajuda a explicar o peso do Pará no valor agregado da cadeia, que engloba colheita, transporte, comercialização e beneficiamento.

Estado concentra quase 90% do açaí produzido no Brasil

Além do domínio no valor gerado, o Pará também lidera em volume. Segundo a Fapespa, o estado respondeu por 89,5% da produção nacional. O Amazonas aparece em seguida, com 7,2%, enquanto o Amapá participa com 1,3% do total brasileiro.

A produção é fortemente concentrada em municípios paraenses. O estudo indica que dez cidades do Pará reúnem cerca de 60% de todo o açaí produzido no Brasil. No ranking, Igarapé-Miri ocupa a liderança, com 13,2% da produção nacional. Cametá vem na segunda posição (7,9%) e Anajás aparece em terceiro lugar (6,2%).

Mais produtores e empregos ao longo da cadeia do açaí

O crescimento também se reflete no número de estabelecimentos dedicados à atividade. O estudo mostra que o Pará passou de 5,2 mil unidades produtoras em 1986 para mais de 81 mil em 2017. O setor reúne desde agricultores familiares até iniciativas de maior escala, ampliando a capilaridade econômica do fruto em diferentes regiões.

De acordo com a nota técnica, a cadeia produtiva do açaí garante 4.763 postos de trabalho diretos e indiretos ligados a etapas como logística, comércio e processamento.

Valor do açaí no Pará salta de R$ 509,7 milhões para R$ 8,8 bilhões

A Fapespa também reconstrói a trajetória do açaí como produto de alto valor comercial. Em 1994, a produção paraense movimentou R$ 509,7 milhões. Três décadas depois, o montante chegou a R$ 8,8 bilhões, impulsionado pela maior demanda no mercado interno e pelo avanço das vendas externas.

No comércio internacional, a evolução é ainda mais evidente quando se observa a exportação de derivados do fruto. O estudo aponta que o valor exportado subiu de US$ 334,2 mil em 2002 para US$ 127,8 milhões em 2024.

O preço médio por tonelada exportada também cresceu no período: passou de US$ 1,1 mil para US$ 3,6 mil, reforçando o reposicionamento do açaí como commodity de nicho com maior valor agregado.

Lavouras de açaí ampliam sequestro de carbono e fortalecem a bioeconomia

Além do impacto econômico, a Fapespa destaca a dimensão ambiental do cultivo. A área de açaí plantado no Pará aumentou de 135 mil hectares em 2015 para 252 mil hectares em 2024. Com isso, cresce também a capacidade de captura de carbono associada às lavouras.

Segundo o estudo, em 2024 essas áreas foram responsáveis por reter aproximadamente 907 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2). Para a fundação, esse dado reforça a contribuição do açaí para estratégias de equilíbrio climático e abre espaço para iniciativas ligadas a créditos de carbono.

O diretor da Fapespa responsável pelo trabalho, Márcio Ponte, afirma que os resultados evidenciam tanto a liderança do Pará quanto o potencial ambiental do sistema produtivo. Na avaliação dele, a expansão do açaí plantado combina geração de riqueza, preservação e novas possibilidades econômicas, com o fruto consolidado como símbolo cultural paraense.

Desafio é manter liderança com tecnologia no cultivo e no pós-colheita

O presidente da Fapespa, Marcel Botelho, avalia que o desempenho da cadeia impõe um novo patamar de responsabilidade ao estado. Para manter a vantagem competitiva, ele defende investimentos em inovação, especialmente em técnicas de cultivo e melhorias no processamento pós-colheita.

De acordo com Botelho, a fundação busca ampliar parcerias com universidades para acelerar a adoção de tecnologias que garantam produção sustentável, com viabilidade econômica e cuidados ecológicos. A meta, segundo ele, é preparar o setor para uma concorrência mais intensa no futuro.

Presente na alimentação tradicional de povos amazônicos e cada vez mais inserido em cadeias globais, o açaí mantém no território paraense seu principal eixo de produção. Com predominância no volume, no valor gerado e agora com números associados ao sequestro de carbono, o fruto segue como peça-chave da economia e da bioeconomia na Amazônia.