A turnê “Tempo Rei”, criada para celebrar a trajetória e o repertório de Gilberto Gil, chegou oficialmente ao fim neste sábado (28) em São Paulo. O encerramento aconteceu no Allianz Parque, com público estimado em 50 mil pessoas e um espetáculo de cerca de três horas, marcado por sucessos, dança e uma série de participações da família do artista.
No palco, Gil manteve o tom de celebração que acompanhou a série de shows ao longo do último ano. Em um setlist extenso, com 33 canções, ele costurou diferentes fases da carreira e transformou o estádio em uma grande festa coletiva, com momentos de emoção e lembranças pessoais.
Final no Allianz Parque reúne 50 mil e celebra 60 anos de carreira
O show de despedida em São Paulo teve clima de evento histórico. Entre músicas que atravessam décadas, Gil cantou e se movimentou com leveza, em sintonia com a banda e com a plateia. A apresentação foi construída como um passeio por sua obra, reforçando a proposta da turnê: destacar o legado do cantor e compositor que soma seis décadas de carreira.
A energia do público foi um dos motores da noite. Mesmo após o encerramento formal do repertório, o artista voltou ao palco para agradecer e estender a despedida, em um ritual típico de grandes finais de turnê.
Participações da família viram destaque da noite
Se em vários momentos da “Tempo Rei” os convidados alimentaram a expectativa do público, no último show a decisão foi por uma escalação caseira. Gil explicou que, desta vez, os convidados seriam todos da família, e a sequência de participações reforçou o caráter afetivo do encerramento.
Mãeana, ex-nora do artista, e Francisco Gil, neto, apareceram para interpretar “Queremos Saber”. Em seguida, Flora Gil, também neta, subiu ao palco em “Estrela”. Já Bento Gil, outro neto, participou tocando violão em “A Paz”. Em tom descontraído, Gil destacou a importância da família ao comentar a presença de filhos e netos na celebração.
Outro momento do roteiro foi a entrada do Gilsons, trio formado por José Gil (filho de Gilberto Gil), Francisco Gil e João Gil (netos). O grupo cantou “Nossa Gente (Avisa Lá)”, faixa ligada ao universo do álbum “Tropicália 2”, gravada por Gil e Caetano Veloso. A participação conectou diferentes gerações tanto no palco quanto no repertório.
Homenagem a Preta Gil marca momento de emoção
A apresentação também reservou espaço para lembrar Preta Gil, filha do cantor, que morreu em julho do ano passado, aos 50 anos, em decorrência de um câncer colorretal. Em um dos trechos mais emocionantes da noite, Bem Gil pediu licença ao pai para citar a irmã e dedicou palavras a ela, recebendo aplausos do estádio.
Gil, por sua vez, falou sobre a ausência e sobre a saudade deixada pela filha. Ele comentou a complexidade de lidar com a partida e reforçou o sentimento de quem permanece, marcado pela falta e pelas memórias.
A lembrança remeteu a um episódio que ficou entre as cenas mais comoventes da própria turnê. Em abril do ano passado, no Allianz Parque, Preta apareceu de surpresa enquanto fazia tratamento e estava internada em São Paulo. Na ocasião, dividiu o palco com o pai em “Drão”, em um encontro que emocionou Gil e o público. Três meses depois, a cantora faleceu.
Turnê teve 29 apresentações e quase 1 milhão de pessoas
O encerramento em São Paulo fecha um ciclo iniciado em 15 de março do ano passado, em Salvador. Ao todo, a “Tempo Rei” somou 29 apresentações, passando por Brasil, Argentina e Chile, e foi vista por quase um milhão de pessoas, de acordo com a organização.
As participações especiais foram uma marca recorrente do projeto. A cada show, crescia a expectativa sobre quem dividiria o palco com Gil, alimentada por postagens nas redes sociais em que o artista aparecia com as mãos unidas às de outra pessoa, sugerindo pistas ao público. Ao longo da turnê, mais de 30 artistas participaram, incluindo nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Marisa Monte e Roberto Carlos.
Em São Paulo, a passagem foi especialmente intensa: foram sete apresentações na capital, sendo seis delas em 2025. O resultado, segundo os organizadores, foi o recorde de maior número de shows de um mesmo artista no Allianz Parque em um único ano.
Além dos palcos em terra firme, o projeto ganhou um braço em alto-mar com o “Navio Tempo Rei”, que levou Gil e convidados para apresentações entre 1º e 4 de dezembro de 2025.
Próximos passos: Rock in Rio e musical sobre a vida de Gil
Embora a turnê esteja encerrada, Gilberto Gil não deve se afastar dos palcos no curto prazo. O artista tem show marcado para 7 de setembro no Rock in Rio, no palco principal, antes da apresentação do britânico Elton John.
Antes disso, o público ainda terá uma nova oportunidade de mergulhar em sua história por meio do musical “Gil – Andar com Fé”, com estreia prevista para agosto em São Paulo. Com direção de Miguel Falabella, o espetáculo vai retratar fases da vida do músico, do período na Bahia — entre o sertão de Ituaçu e a efervescência cultural de Salvador — até o exílio em Londres.
Com o fim da “Tempo Rei”, Gil encerra um capítulo de comemoração e reafirma o tamanho de seu repertório, agora celebrado por diferentes gerações, inclusive dentro da própria família, que ajudou a dar o tom do adeus no Allianz Parque.