Direitos das mulheres

Ceará

Defensoria do Ceará lança campanha sobre economia do cuidado

Atualmente, mulheres representam mais de 60% dos afastamentos por questões de saúde mental no Brasil

A Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE) lançou a campanha “Elas sentem o peso”, com o objetivo de ampliar o debate sobre a economia do cuidado e como a distribuição desigual dessas tarefas afeta, especialmente, a vida das mulheres.

O cuidado — que inclui afazeres domésticos, criação de filhos e assistência a familiares idosos ou doentes — costuma ficar fora das estatísticas tradicionais da economia. Mesmo assim, é um trabalho essencial para a rotina das famílias e para o funcionamento da sociedade.

Na prática, porém, essa responsabilidade continua recaindo majoritariamente sobre as mulheres, gerando sobrecarga, prejuízos financeiros e impactos na saúde.

Campanha busca dar visibilidade ao trabalho invisível

Com “Elas sentem o peso”, a Defensoria do Ceará pretende chamar atenção para um tema que aparece com frequência nos atendimentos diários da instituição: a dificuldade de mulheres em reconstruir a vida após anos dedicadas ao cuidado de terceiros, sem que esse esforço seja reconhecido ou convertido em autonomia financeira.

Embora o cuidado sustente a vida cotidiana, ele raramente é tratado como trabalho. Essa invisibilidade ajuda a manter um ciclo de desigualdade: quem cuida tem menos tempo para estudar, se qualificar, buscar emprego, crescer na carreira e garantir renda própria.

A campanha propõe ampliar a discussão pública sobre o tema, apontando que a divisão desigual das tarefas não é apenas uma questão doméstica, mas também social, econômica e jurídica.

Casos atendidos mostram efeitos após separação e na guarda dos filhos

Segundo a Defensoria, um dos cenários mais comuns observados nos atendimentos envolve mulheres que dedicaram anos ao trabalho doméstico e à criação dos filhos e, depois de uma separação, enfrentam obstáculos para recomeçar.

Nesses casos, a ausência de independência financeira aparece como um dos principais entraves. Muitas mulheres ficam fora do mercado de trabalho por longos períodos, o que dificulta a recolocação, reduz possibilidades de renda e aumenta a vulnerabilidade.

Outra situação recorrente, conforme a instituição, ocorre mesmo quando há guarda compartilhada: a rotina de cuidados com os filhos — como tarefas escolares, consultas médicas e organização do dia a dia — tende a permanecer concentrada nas mães.

Além disso, há relatos frequentes de mulheres que assumem sozinhas a assistência a familiares idosos, enfermos ou em condição de dependência, acumulando responsabilidades sem apoio suficiente.

Dados do Ipea indicam diferença de 10 horas semanais

O cenário apontado pela Defensoria encontra respaldo em números do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). De acordo com os dados mencionados, as mulheres dedicam, em média, 10 horas a mais por semana aos afazeres domésticos do que os homens.

Essa diferença ajuda a explicar por que tantas mulheres enfrentam barreiras adicionais para se manter no mercado de trabalho. Menos tempo disponível significa menor capacidade de assumir jornadas formais, fazer horas extras ou buscar oportunidades que exigem flexibilidade.

Como consequência, a renda pode ser impactada de forma direta, aumentando a desigualdade econômica entre homens e mulheres e limitando a autonomia de quem sustenta grande parte do cuidado familiar.

Sobrecarga afeta renda e contribui para adoecimento

A campanha também coloca em evidência os efeitos sobre a saúde. O acúmulo de tarefas, a pressão por dar conta do cuidado e a falta de divisão equilibrada podem resultar em exaustão física e emocional.

No Brasil, as mulheres representam mais de 60% dos afastamentos por questões de saúde mental, conforme o recorte citado no contexto da iniciativa. Esse dado é apresentado em um cenário marcado por sobrecarga e desigualdade na distribuição das responsabilidades de cuidado.

Na avaliação proposta pela campanha, discutir a economia do cuidado é também discutir prevenção ao adoecimento, qualidade de vida e as condições concretas para que mulheres tenham acesso a trabalho, renda e tempo.

Defensoria também toca projeto “Entrelaços”

Além de “Elas sentem o peso”, a DPCE desenvolve o projeto “Entrelaços – A Defensoria que cuida da gente”. A iniciativa tem como foco ampliar a visibilidade do tema e fortalecer o debate sobre os efeitos sociais, jurídicos e econômicos do cuidado.

Ao tratar o cuidado como parte relevante da dinâmica social, as ações buscam contribuir para uma compreensão mais ampla sobre desigualdades de gênero, responsabilização familiar e os impactos dessa divisão no cotidiano.

Com as duas iniciativas, a Defensoria do Ceará reforça a importância de reconhecer o cuidado como elemento central da vida em sociedade e de ampliar a discussão sobre suas consequências, especialmente para mulheres que acumulam jornadas dentro e fora de casa.