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Canetas emagrecedoras mudam carrinho do brasileiro, mostra pesquisa

O levantamento também mostra uma diminuição na frequência de saídas para comer em restaurantes (47%) e pedidos de deliverys e fast-food (56%)

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras já começa a aparecer fora dos consultórios e das farmácias: ela está alterando o jeito como famílias brasileiras abastecem a despensa. Um levantamento nacional do Instituto Locomotiva indica que, em domicílios onde há usuários desse tipo de medicamento, a compra e o consumo de alimentos e bebidas passam por uma reorganização significativa.

De acordo com a pesquisa, 95% dos lares com usuários das canetas registraram queda no consumo de ao menos uma categoria alimentar. O estudo foi realizado entre os dias 3 e 9 de fevereiro deste ano, com 1.004 entrevistas em todas as regiões do país.

Queda atinge doces, bebidas açucaradas e ultraprocessados

Os dados mostram que a diminuição do consumo se concentra especialmente em itens associados a maior densidade calórica e maior teor de açúcar, gordura e sódio. Entre as categorias com maior recuo estão doces, snacks e salgadinhos, citados por 70% dos lares com usuários.

Em seguida aparecem bebidas adoçadas, com redução reportada por 50% dos entrevistados. Massas e outros carboidratos foram mencionados por 47% como itens consumidos com menos frequência. Bebidas alcoólicas registraram queda em 45% dos domicílios, enquanto os alimentos ultraprocessados tiveram redução em 42%.

Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, o fenômeno vai além de uma escolha pontual por “comer melhor” e revela uma alteração de comportamento que pode repercutir em diversos setores. Segundo ele, a pesquisa sugere uma mudança concreta no padrão de consumo, com menos produtos de conveniência, menor presença de ultraprocessados e, em alguns casos, diminuição de gastos com alimentação.

Menos refeições fora e redução em delivery e fast-food

A mudança de rotina também se reflete fora de casa. O levantamento aponta que 47% dos lares com usuários relataram ter reduzido a frequência de idas a restaurantes. Já a diminuição de pedidos por delivery e consumo de fast-food foi ainda mais expressiva: 56% afirmaram ter cortado esse tipo de compra.

Na avaliação do estudo, um dos elementos que ajuda a explicar o comportamento é a redução do apetite após o início do uso das canetas. O Instituto Locomotiva registra que 8 em cada 10 domicílios com usuários perceberam diminuição do apetite.

Esse cenário tende a impactar diretamente empresas que dependem de alto giro de itens prontos, sobremesas e bebidas açucaradas, além de negócios apoiados no consumo por impulso e em porções maiores.

Reorganização da dieta: cresce consumo de proteínas, frutas e integrais

Apesar da queda em várias categorias, a pesquisa não aponta apenas cortes. Em 4 em cada 10 lares, houve aumento do consumo em pelo menos um grupo de alimentos, indicando uma espécie de substituição no carrinho.

Os destaques de crescimento, segundo os entrevistados, foram proteínas magras, com alta relatada por 30% dos domicílios. Frutas e vegetais aparecem na sequência, com aumento em 26%. Alimentos integrais tiveram expansão em 25% dos lares, enquanto água e chás sem açúcar cresceram em 22%.

O conjunto de dados sugere uma migração para escolhas mais alinhadas a dietas de maior saciedade e menor ingestão de açúcar, além de um foco maior em hidratação sem adição de calorias.

Mercado de alimentos e varejo se preparam para um consumidor diferente

O Instituto Locomotiva chama atenção para a necessidade de adaptação do mercado diante de um consumidor que passa a comprar de outra forma. Supermercados, atacarejos, restaurantes e a indústria de alimentos estão entre os segmentos citados como diretamente afetados por mudanças na frequência de compra, no tamanho das porções e na composição da cesta.

Se o acesso a esses medicamentos se ampliar, a tendência é que o efeito deixe de ser pontual e passe a influenciar estratégias de portfólio, promoções e planejamento de demanda. Itens com alto teor de açúcar e ultraprocessados podem perder espaço, enquanto categorias como proteínas magras, hortifruti, integrais e bebidas sem açúcar ganham relevância.

Na prática, o estudo aponta para uma transformação que combina saúde e comportamento. Não se trata apenas de um produto farmacêutico com impacto individual, mas de uma mudança de hábitos capaz de reposicionar o consumo alimentar de parte da população e pressionar empresas a repensarem oferta, comunicação e formatos de venda.